Estou nu

Resultado de imagem para DISTORÇÃOEstou nu.

Sento sob a grama, recosto-me em alguma árvore e uma sensação de intenso relaxamento me invade. Não sei quando tempo fico ali, tentando fazer com que meus pensamentos não perturbem minha paz temporária. Busco não pensar em nada, simplesmente deixar que meus pensamentos flutuem sem direção, como rolhas jogadas ao rio. Que eles não me perturbem, mas que se perturbem. Que se anulem.

Tento me focar em algo que me traga prazer. E lá estão elas, as nuvens. Fico feliz com a dança das mesmas, que parecem seguir uma só direção, impulsionadas pelo vento. Elas vão me salvar, temporariamente, do caos instalado em minha mente. Imagino-me como se eu mesmo fosse nuvem, quero senti-las como se fosse eu próprio, dissolver-me, esquecer-me, não tornar a ser o que sou.

Quero me misturar ao que é natural, seguir a lei própria de todas as coisas, mas as desconheço. E, sinceramente, mesmo que as conheça, eu iria realmente segui-las, ou deixaria que os meus pensamentos vagassem sem rumo, atordoados pela cascata de desejos, de vontades? Afinal, quem eu sou? Na verdade, quem flutua como uma rolha jogada ao rio sou eu. O rio, os pensamentos que me tomam de maneira anárquica, que me fazem adiar o pior ou o melhor encontro, comigo mesmo.

Acho que estou nu como um ato de libertação de todas as convenções sociais. No que sou melhor do que um índio, do que foi Adão ou Eva, para quem acredita no Velho Testamento? De todo, despir-me foi um ato simbólico, antes de ter de novamente embarcar na velha arca de Noé, com animais, com pessoas, com o mundo todo. Ou com o que restou dele. De todo, estou nu, mas esse é apenas um momento.

Minha audácia tem tempo e hora. Daqui a mais estarei ali, no meio dos celulares e das irônicas hipocrisias que consagramos de modo tão consistentemente estéril. No entanto, o que importa é que estou nu. Posso dizer tranquilamente que minha nudez, se por um lado não afronta nem ofende ninguém, pois estou isolado de tudo, por outro me deixa feliz.

Ficamos pouco tempo nus. Devíamos fazê-lo com mais frequência. Olharmos nossos corpos  como eles são. Nesses casos, sugiro que não procuremos defeitos, mas que nos amemos. Defeitos e erros e críticas são muito recorrentes. Mais: nos deixamos levar por opiniões, por tudo que nos cerca. E, normalmente, ficamos infelizes por isso.

É nisso que penso enquanto estou nu, nas diversas chaves que a nudez abre. Um mundo simbólico e humanamente sensível. Uma oportunidade de, através da finitude dos nossos corpos acessarmos instâncias maiores. HILTON BESNOS

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