A tepidez e os pequenos infortúnios ou algo sobre as palavras.

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Escrevo como se as palavras me fossem amigas, amantes, conspícuas, tépidas, amoráveis; cada uma lembra uma deliciosa carícia docemente silenciosa. Há contudo outras, duras, sem graça, como metonímia, e mesmo difíceis de serem escritas, como arteriosclerose, relatório, rubicundo. Se notarmos bem, termos técnicos não se constituem de palavras fluidas.

Nada mais carnal que volúpia, mais solidário que tristeza, mais relaxante que tépido, mais redondo que bunda, mais ferino que ironia, mais frio que gelo, mais poeticamente indicativo que rosa-dos-ventos, mais fraterno que um abraço. Há também os palavrões, que se encontram no imaginário e que ficam sendo execrados por uns enquanto aplaudidos pelos seus usuários. Admitamos: se cada palavra tem seu momento e local, o palavrão também tem, gostemos ou não.

Há palavras de ódio, de demandas, de desafetos, propensas às batalhas do dia-a-dia. Essas se alimentam de explosões de raiva, e são jogadas como uma cusparada, como um tapa no rosto de outrem, uma desconsideração. Em especial o ódio se nutre do desentendimento, dos sentimentos menos humanos que todos nós possuímos.

As palavras são o mundo simbólico por excelência, pois o homem é um ser discursivo. Todas as suas experiências corresponderão a um sentido, um sentimento, uma iluminação, um insight, uma destruição, um ato de criação, uma demanda. Dentro desses encontros e desencontros consigo mesmo e com o outro formamos a nossa história, na medida em que, por  igual, influímos na vida do outro.

Há no entanto uma gradação aí: algumas dessas micro-histórias são públicas e permitimos seu acesso por quem conhecemos ou mesmo venhamos a conhecer. São as palavras que dizem o que o senso comum ouve ou quer ouvir, ou o que nos satisfaz compartilhar. Um discurso que normalmente possui a profundidade de um pires, tão-só para sermos considerados socialmente polidos (e a polidez é uma semi-virtude).

No entanto, palavras se estruturam e emprestam seu significado para que compartilhemos determinados assuntos com pessoas que nos são caras, nossos amigos, e não todos eles, mas os efetivamente confiáveis. Temos aí um cuidado maior, uma pessoalidade intransferível com tais palavras e significados, e os nossos discursos passam a ser mais ou menos contidos, dependendo de com quem os compartilhamos.

Finalmente, há segredos que não nos autorizamos compartilhar com ninguém. Dependendo da situação, mesmo nós, protagonistas ou partícipes evitamos pensar neles, embora ele fique ali, latente e nos acompanhando como uma consciência profundamente enraizada. Aliás, se pudéssemos, os esconderíamos de nós mesmos.

Mas elas estão lá, as palavras, as construtoras, as que nos fazem sonhar ou entrar em agonia.

Faladas ou não, escritas ou não, ditas ou não, as mesmas se constituem em um universo infindável que nos atravessa a todo instante, que por vezes nos mantém cativos ou nos estraçalham, como uma verdade que queríamos esconder e que nos atropela no instante seguinte. Palavras, em si, não são neutras. Quando, pois, tentamos ser, mentimos para nós mesmos. A questão é que, ao mentir, ao fazê-lo não conseguimos enganar-nos a respeito de nós mesmos. A mentira é sempre uma falsa moeda, por mais caridosa que seja ou possa vir a ser.

Que possamos compartilhar, com nossas palavras, seus melhores significados. Amoravelmente, eu diria. HILTON BESNOS.

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