Le Grand-Guignol du Brésil

Theater du Grand Guignol  L Etreinte Du Mort  1940s era poster from the legendary Paris theater. Reproduced as a limited edition, produced exclusively by Transmission Atelier.;  23.5" x 36". $550:

Algumas décadas se passaram desde que um professor da PUC/RS afirmou que, na América Latina, o poder político era tão só o megafone do poder econômico. Logo o primeiro estava subordinado ao segundo. Até hoje essa frase não me abandonou: contrariamente, consolidou-se. Creio que a maldade (ou a realidade) que serve de fundo para tal afirmação tão-só tornou-se mais forte. No Brasil, agudizou-se.

Por aqui o poder político tratou com eficiência e eficácia de criar uma legislação de maneira não só a protegê-lo, como aos principais atores do poder econômico, através de leis, projetos de leis, decretos legislativos, medidas econômicas, remissão de dívidas, cartórios fiscais, benesses de toda a ordem, bem como cuidou de si próprio, de modo a não ser perturbado de modo sério pelos (para si) inconvenientes que o sistema democrático agenda, como reformas estruturais, necessidades prementes e essenciais para a melhoria dos mecanismos que urgem para a melhor qualidade de vida da população de modo geral.

Para tal self-safety apoiou-se nos fatores que todos conhecemos: no desconhecimento da política institucional por parte do brasileiro médio, na ignorância, nas produções massivas culturais e na famosa “lei de Gerson”, que busca vantagens durante todo o tempo, a todo custo, sem qualquer conseqüência e do modo mais imediatista possível. A falta de referências educacionais e a dilapidação em especial nos campos de conhecimento mais socialmente sensíveis (filosofia, história, sociologia) é um dos fatores que embalam o eterno sonho do gigante, que de quando em quando troca de posição, ronca mas não acorda, deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo.

O sistema político brasileiro criou-se a si mesmo como casta envolta em privilégios, solapando, assim, o próprio regime democrático. Ao proteger-se corporativamente de modo tão insensível e afastado da vida dos comuns mortais, optou pelo crescimento cada vez mais drástico da corrupção, atendendo aos princípios da obscenidade e do savoir vivre,conforme a leitura atenta de “A cidade perversa”, do filósofo e professor da Universidade de Paris VIII, Dany-Robert Dufour. Dessa forma, a construção da política brasileira lembra o princípio máximo sadeano: “Goze!”

A operação lava-jato, contudo veio quebrar essa tão imóvel posição dos políticos brasileiros e da política institucionalizada de modo geral. O que se observa, contudo, é que embora os esforços sejam diligentes, embora haja críticas aqui e ali de perseguições políticas, o que pode dar vazão ao instrumental discursivo, tal não é de tal modo unânime entre a sociedade, que vê que as denominadas posições ideológicas são absolutamente fluidas e que não resistem minimamente às investidas do capital.

Parece-nos desimportar se os principais atores dessa ópera trágico-burlesca se situam à direita, à esquerda ou o centro do espectro político, pois são extremamente sensíveis e acolhedores da generosa propina que os subornadores-empresas entendem muito mais ser um investimento negocial do que uma prática tangida pela ilegalidade. Realmente, se a empresa X ou Y ou Z faz tais investimentos-propinas, os valores alcançados aos corrompidos é muitas vezes ínfimo em relação à lucratividade auferida.

Tal sistema, denunciado pública e amplamente pela supracitada operação implica em um desmando e em uma degenerescência da atividade pública daqueles que deveriam zelar, primordialmente, pelo bem comum. Altamente organizado, tal sistema criminoso apresenta, aqui e ali falhas, aos quais o poder político tenta sanar na calada da noite, editando novas medidas com o desejo de bloquear, de obstaculizar as conseqüências, para corruptores e corruptos, de tais brechas.

Ante tudo isso tudo, parte da sociedade brasileira finge ter pudores morais, quando na verdade ela mesma, por sua desídia e flagrante ignorância patrocinou a ladroeira geral, atendendo a seus próprios interesses. Os caciques políticos só existem porque aprenderam a manobrar no cenário político em atendimento ao que entendem privativamente melhor para si, em um retrato de seus eleitores, alguns insatisfeitos, outros nem tanto, que os conduziram até lá. Dentro desse Grand Guignol nacional, todos os atores cumprem seu papel à risca. O público, ávido por novas bizarrices, e aqui novamente embalados pelo desejo infindável que o consome, aguarda, ansioso, na fila. Après tout, le spectacle doit continuer. HILTON BESNOS

 

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