Ameaçador

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O telefone tocou.

– Quem fala?

– Afonso

– Bom dia, deputa…

– Bom dia coisa nenhuma! Já leu os jornais? Escutou rádio, olhou a TV?

– Não, ainda…

– Pois então faça isso! Vai estar lá, o meu nome, suspeito de desvio de verbas parlamentares, uma foto minha no plenário, um inferno!

– Calma, Afonso, pra tudo tem um jeito.

– Não sem apoio, e apoio que é bom, eu não tenho!

– Você está muito estressado, tem de buscar possibilidades, alternativas.

– Com quem? Dentro desse partido de m, é que eu não vou!

– Fora do partido.

– Quem?

– Conheço um cara, você também conhece, claro…

– Acho que sei quem é.

– É, ele mesmo, mas terão algumas concessões quando chegar o momento.

– Quais concessões? O que alguém pode me pedir ainda? Nessa situação, o que alguém pode ainda me pedir?

– Favores, declarações, coisas do tipo, pra você se salvar, mas, claro, ficando com algumas restrições e…

– Com o rabo preso, você quer dizer!

– Mais do que você está?

– Nós estamos, não esqueça…

– Você é quem está em evidência, não eu.

– É verdade, desculpa, você é um bom amigo, estou explodindo de nervoso…

– Ligue para o nosso amigo, tente resolver, uma boa conversa…

– Você não entendeu, não há como isso ser resolvido. Vão me crucificar quando descobrirem.

– E você vai se entregar assim? Ora, muita gente lucrou com isso tudo…

– Inclusive você, mas o nome que está lá é o meu. Eles foram muito espertos. Quais as provas que eu tenho?

– Talvez você não tenha provas, mas você sabe o que aconteceu, então deixe isso pra lá. Quando chegar a hora, você abre o bico e ferra com todos eles. Claro, se o nosso amigo em comum indicar… a questão é agir no momento certo.

– Inclusive e especialmente comigo. E isso se eu ainda tiver bico.

– E o passaporte, o seu passaporte, está com você?

– Sim, mas não sei por quanto tempo. Vai ser a primeira coisa que vão me tomar, pode estar certo…

– Você já pensou em sair fora?

– Já, mas não vejo como. Melhor ser um suspeito aqui do que ter a Interpol no meu caminho.

– Você está muito dramático. A Luciana sabe?

– Desconfia.

– E os meninos?

– Não tem a mínima ideia. Vão me odiar por isso tudo. Vão direto pro bullying na escola.

– Bom, quando a coisa apertar, a Luciana pode viajar com as crianças, para que elas não estejam na hora em que tudo explodir, pelo menos você os poupa um pouco.

– Da boca do furacão…

– Mais ou menos isso.

– Ok, a gente continua se falando.

– Não, não nos falamos mais. Podem nos rastrear. Não esqueça de ligar para nosso amigo.

Ambos desligaram.

Afonso começou a repassar a conversa. “E se nos rastrearem”, disse o canalha. Claro, quando as coisas explodem, quando, ao invés da propina seu nome começa a ser citado nos jornais, todos os aproveitadores de plantão fogem que nem ratazanas. Olhou o relógio, dez horas da manhã.

Olhou para o telefone, desconfiado. E se ele tivesse sido grampeado?

“Não, ainda não, afinal isso é Brasil. Hoje mesmo vou duplicar o que for importante e vou trocar meu celular. Não, por um não, por dois. Um de segurança e o meu – babaus! – vai pro mato!”

Ficou uns dez minutos de pijama, contemplando seu telefone. Nunca ele tinha parecido tão ameaçador.

HILTON BESNOS

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