O nu, a hipocrisia e o currículo oculto

 

 

Esta foi a foto colocada no computador da escola, na sala dos professores, em 2006. Como o próprio nome diz a sala sempre foi privativa dos professores. As opiniões e comentários abaixo igualmente são deles, não de terceiros.

O cerne (?) da discussão

Pois na sala dos professores da escola tem um computador. Alguém colocou na tela de abertura do mesmo a foto de um homem nu, deitado de bruços. O modelo tem um físico de halterofilista. Está ele ali, deitado displicentemente, e deve ser interessante, presume-se, para quem colocou a foto, mas não só para ele, tamanhos os comentários causados ao redor de tal fato.Me perguntaram o que” eu achava daquilo”, uma pergunta armada para que eu “me horrorizasse”. Disse que achava a foto esteticamente interessante. E por aí se foram comentários, comentários, e assim caminha a humanidade.

A hipocrisia, contudo, mais do que as anteriores, foi a de que alguém teve a infeliz ideia de usar alguma dessas coisas de computador e desenhar uma cueca, um cuecão ou algo tristemente semelhante para cobrir a indigitada nudez. Então o ridículo atingiu o ápice, me lembrando que, em um determinado ano, a Igreja Católica ingressou com um pedido judicial para que a GRES Beija Flor não apresentasse uma alegoria na qual Cristo era representado ao lado do povo pobre e necessitado do Rio… e ganhou!

Hoje, contudo, novamente resolveram descobrir o homem e ele voltou a ficar ali, como veio ao mundo e como estava no foto original.

Ouvi comentários machistas/feministas de todos os calibres possíveis, ouvi barbáries. Talvez o que mais tenha me chocado seja o espanto das pessoas. Gente que fica chocada, como se fossem virgens vitorianas perdidas dentro de um bordel. Homens que simplificam tudo: basta chamar de viado e tudo está definido. Por incrível que pareça, esse circo todo é em uma escola, e os personagens todos são reais. Às vezes os seres humanos me parecem tão virtuais quanto as imagens que projetam.

No entanto, queiramos ou não, temos muito a discutir a respeito de tal fato; a imagem é o de menos, mas as interpretações a respeito da mesma são de pensarmos. No entanto, isso mostra como é difícil conviver com o não padronizado dentro de uma sociedade como a nossa; por outro lado, também demonstra que espaços anteriormente sacralizados como a sala dos professores, pelo menos no caso, já perderam tal característica.

Quem faria isso há décadas atrás? Quem colocaria a foto?

Há uma impropriedade aqui: de espaço, de tempo, de oportunidade. Adentrar em questões moralistas (não morais, moralistas) é algo que realmente não me atrai muito, acho uma discussão estéril, em que se troca o principal pelo credo ao principal, o que são coisas totalmente distintas.  Pior que isso foi avançar para o simulacro que tapou a nudez e, depois, voltar atrás.

É o que se chama, na prática, de currículo oculto, cujas conseqüências, contudo, são extremamente relevantes. Talvez até, urgentes.

Em termos de espaço, o mesmo se resume, em si, à tela de um computador, em relação ao tempo, podemos considerar desde a exposição inicial até a final, passando pelo indigitado processo de tapar as nádegas do modelo da foto. Em termos de oportunidade, contudo, há bem mais a discutir.

Quem fez isso igualmente faria se estivesse trabalhando em uma sala de professores de uma escola particular? Provavelmente não, e aí, o que percebo, é o  simulacro que se perfaz através do inverso do discurso machista: “Se fosse uma mulher, ninguém falaria nada, não é verdade?”, o que serve para que não se discuta o que deve ser discutido ou, em outros termos, para que sigamos todos a reboque a tendência geral à mediocridade. Uns riem, outros se ofendem, alguns gostam outros não e questões sérias, como as de gênero, são colocadas em plano algum.

É assim que se constrói a deseducação, através da não discussão de espaços públicos, e menos ainda, do que tal ato significa. Talvez eu até esteja sendo sério demais, mas prefiro isso do que uma atitude happening. Preferiria que todos os professores conversassem sobre o tema, até porque somos formadores de crianças, jovens e adolescentes, mas isso ficará pra lá, pra acolá e -kapput! – não se toca mais no assunto para não ferirmos suscetibilidades e, especialmente, para não entrarmos em uma discussão que poderia ser muito gratificante.

PS. Isso aconteceu em 2006, e quando foi publicado no blog do Besnos, recebi várias mensagens que entendiam ter o blog um conteúdo mais erótico, no sentido permissivo da palavra. Cansei e troquei a foto, de tantas as bobagens recebidas. Hoje, oito anos depois, republico a foto como ela estava no original. Vamos ver o que acontece. Pode ser, inclusive, que tenhamos evoluído um pouco, e questões como gênero e currículo oculto possam ser discutidas em razão deste post. Tomara.

PS 2. Hoje já se passaram dez anos. HILTON BESNOS.

 

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