Champanha brut

 

O que tenho para te dar são as minhas mãos, um pouco da minha vitalidade ou o que possa fazer dela. Pertenço a ti, mas, antes, à minha solidão, esta bem mais companheira e acessível do que jamais pensei. Trago em mim os votos de uma não castidade que se confunde com alguns recorrentes traços de perversão; preciso, talvez, converter-me a alguma religião para que, então, possas me associar com algo de metafísico, inerente à condição humana. No mínimo à submissão, o que já é algo mais palatável. No fundo os amores são assim, um tanto de submissão e outro de submeter. Enfim, é deste modo que o amor se estrutura, adicionado com muito de paixão, de desejo e de algo, talvez um perfume de belíssima qualidade mas pouca fixidez, de amor romântico. Meu realismo talvez decrete, em ti, o sentimento de expulsão. Sejamos honestos, quero te provar. Concebido e saciado o desejo, racionalizada a homeostase da carne, satisfeitos nossos precários metabolismos, poderemos, só então, pensar em buscar nossas harmonias conjuntas. De todo modo, me perdoa se te digo assim o que outros não falaram, antes procuraram te enlaçar sobre os dramas, paixões e misérias de um amor de sal, açúcar e água. Prefiro ser quem sou, e se a volúpia de ti me vem, não entendo porque não expressá-la. Palavras sagradas, redondas, que se imiscuem, que são retratos mais fiéis do que somos, e que pretendemos esconder com camadas e camadas de comiseração e de uma pudicícia que se torna desleal a nós mesmos.

Isso, talvez seja isso: nos acostumamos a predar, a consumir, a descartar, a não termos compromissos maiores senão com as nossas próprias vontades. Construímos pontes que dali a pouco se desvanecem, como quadras de sonhos inteiros, mas não nos atemos a perguntar o porquê dos fatos. Apenas estamos ali, em um trem cujas estações desconhecemos. Apreciamos a paisagem, mas igualmente interferimos na mesma, na medida em que a narramos para nossas idiossincrasias e para quem, de dentro, não vê o de fora. Prosseguimos, trocando nossos discursos e identidades com uma facilidade que chega ao constrangimento. Somos pontos, somos deuses de nós mesmos, e por isso as aproximações que fazemos são todas como um arco de cosseno. Talvez por tudo isso eu deva ser menos coerente do que querias, do que desejavas. Sou e faço parte da incoerência. E, no entanto, a despeito de tanto, te desejo, como talvez um pouco mais que um tênis Reebok. Sei, me descartarás também, mas tudo ao seu tempo. Te proponho fruirmos agora, para, somente após pagarmos os preços de nossos mútuos abandonos.

De todo, há ali um seio, uma coxa, um par de pernas, um torso masculino, de todo há ali um balé bonito, de corpos que se fundem, que se confundem, os nossos, e todas as salivas, e suores, e desejos que se misturam como uma boa safra de champanha brut.  Somos agonizantemente belos, e a beleza, talvez nossa maior carta de proposições, nos salva de qualquer depressão, de qualquer amargura ou mesmo do sofrimento. Quando minhas mãos te acarinharem, teu ventre se arqueará como uma sinfonia de Haydn. Somos belos, somos jovens, somos descartáveis. Somos o que somos e somente uma luz de estranha tessitura nos salvará. Luz que é onda, onda que é efeito, miragem é o que apontamos logo ali, enquanto nossas bocas, sedentas, mergulham na escuridão. Hilton Besnos

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