Peregrinação

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Em algum lugar, bem longe de onde estou, começou minha peregrinação. Cheguei aqui, com todos meus sentidos, com meus percalços, com um pouco menos de espírito mas ainda sendo solidário, cheguei aqui, talvez para simplesmente sentar e te contar uma grande história, mas não essas de vultos e heróis pátrios, nem de descobridores, nem de talentosas pessoas. A história que venho te contar é a minha mesmo, essa que fui entretecendo nos dias e nas noites em que vaguei por aí, em que fui eu um parco herói de baixo coturno. Mas, se não quiseres escutá-la, não vou sequer me amolar, pois a compreensão habita em mim, assim como o conformismo.

Não, não te preocupes se te disse que percorri grande distância para que fosses meu ouvinte. Esquece, afinal, como se diz por aí, eu sou mentiroso. Essa é a minha fama, e portanto é nela que baseio meus comportamentos. Depois de tantos anos, é bom que brindemos à alcateia com nossa mais solene indiferença. Me querem mentiroso, pronto! assim eu serei, e não se discute mais isso.

Sim, é por esse motivo talvez, por dares mais atenção aos boatos que aos fatos que não me queres escutar. És uma pessoa dessas sérias, comprometidas, probas, que tem muitos compromissos e não deves mais perder teu tempo me dando tua atenção. Sim, sim, as pessoas sérias sempre dão alguma coisa aos outros, para que esses fiquem lhe devendo favores. Eu, cá com meus botões, percebo: me destes já uma parte do teu tempo, mas não podes mais fazê-lo, então só posso agradecer a tua misericordiosa contenção ao me ouvir, pelo menos até aqui e a história – ah, sim, a história! – não, não te preocupes, afinal ela é longa, o tempo se esvai como líquido entre as mãos, e é melhor assim que tudo fique para outro dia, quando também não mais irei contá-la.

Não te dês ao trabalho sequer da curiosidade, pois em mim habita o improviso e decerto, do muito que te diria, a maior parte seria pura invencionice, assim, hás de sair agora, no que te dou razão, embora não te dê meus argumentos, minhas metáforas, sequer minhas metonímias, que tanto aprecio. Ficamos assim, então, sem mágoa, sem remorsos, sem desconfianças, tu partes e levas contigo o que trouxesses, tuas tarefas, teus agendamentos, tua pouca paciência, enquanto eu, pássaro livre e altaneiro levo em mim apenas o trinado da liberdade dos que nada tem a perder. Adeus, então. Hilton Besnos

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