Amor, amor, amor

 

Vivemos em um mundo obrigacional, pleno de rotinas, horários, contratos, com definições cartesianas do que podemos ou devemos fazer e o contrário; nosso mundo apenas agora está se tornando um pouco mais flexível, mas todas as chateações parecem ser tão inerentes a nossa vida ocidental que nos habituamos a isso. Nossa saída de emergência é o consumo cada vez mais alienado e alienante.

E, de repente, amamos.

E quando amamos, queremos, de certo modo tolo, tentar entender nossas relações amorosas dentro do contexto em que vivemos, o que não é possível. Amar não é uma obrigação, não é só sofrimento, não é nos doarmos patologicamente ao outro para depois chegarmos à conclusão de que erramos lamentavelmente. Os erros do amor não são erros, são lições. Uma delas, preciosa, vem de um rabino, do qual infelizmente não lembro o nome, mas que viveu na Idade Média e ensinou que o amor é uma orquestra, mas que não podemos esquecer que para que a orquestra nos eleve com a sua música, é necessário que cada instrumento permaneça tendo as suas características. Um oboé deve ter o som de um oboé, um violino de um violino. O que o rabino quis ensinar é muito profundo e ao mesmo tempo muito realista.

Temos a tendência a modificar a quem amamos. Assim como trôpegos escultores, queremos adaptar o outro àquilo que entendemos que é o melhor em nossa opinião; nessa saga, tanto fazemos que acabamos por efetivamente modificar o outro. Na sua maioria, para pior. Modificamos tanto que um dia nos damos conta de que aquela pessoa por quem tanto demonstramos amor é uma desconhecida; o que não reconhecemos é que nós próprios a reformatamos assim, nós a quisemos assim, porque não aceitamos nosso amor do jeito que ele é, não aceitamos o outro da maneira como ele se porta, então passamos às nossas tentativas cirúrgicas de melhorar a pessoa pela qual nos apaixonamos.

Amor não é obrigação, não é drama, não é tristeza. Claro que há momentos assim, mas o amor é livre, leve. Mais uma borboleta que um pássaro, mais uma poesia que uma crônica, mais uma espera que uma chegada, mais um murmúrio que uma risada. Todos rimos às gargalhadas, mas o amor, sutil, requer passagens mais tranquilas, mais coloridas por ser amor, e não por ser uma tela na qual pintamos nossos desejos.

O amor não é sublime, não é nobre, não é sequer pagão. O amor não exige compromissos, mas, sim, solidariedade; não requer cobranças, mas sim entendimentos; não requer que saibamos exatamente o que o ser amado vai fazer; contrariamente, vive dos pequenos presentes que a delicadeza concede, que a alma sente. Erramos quando estamos amando, mas jamais erramos por amor; talvez por outros sentidos, por outros sentimentos, nunca erramos por amar demais. Podemos errar quando sufocamos o outro a tal ponto que ele se sinta constrangido, manietado.

As lágrimas do amor verdadeiro são bençãos; as que as simulam são por sentimento de posse, por simples desejo de posse, não por amor.

O amor não aceita classificações. Não há amor homossexual, heterossexual, lésbico ou transsexual. Assim como não há beijos e carícias gordas, feias e bonitas. Amor é tão absolutamente grandioso que transforma, quem o classifica, em um ser estéril, incompreensivelmente bizarro.  As religiões são responsáveis em grande parte, com sua capacidade de exercer um poder baseado na crença e na persuasão, por existirem tantos fiéis que tem problemas pessoais, seja em relação ao sexo, seja em relação ao mais puro bem-querer. Muitos fanatismos religiosos defendem apenas o amor heterossexual, sem querer sequer entender os motivos que os levam a pensar assim, tornando tais pessoas duras, racistas, tenebrosamente medievais. No entanto, o Amor permanece como um libelo da humanidade.

O amor, como condição humana, é a que nos torna mais próximo aos deuses. A linguagem dos deuses é a música, dizia Beethowen. Talvez a linguagem humana em sua essência seja o amor. Hilton Besnos

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