Os bonobos e o assalto

Resultado de imagem para grupo de bonobos

 

Escrevi em 09/2005 – Enquanto eu estava no ônibus Mário Quintana, uma das linhas que me levam da faculdade até próximo de casa, lendo um livro sobre as origens da violência e mergulhando no mundo dos bonobos [1] minha mulher Ana estava sendo assaltada na frente da escolinha aonde iria, como habitualmente faz, apanhar o nosso filho Matheus, que tem três anos e meio. Não eram ainda sete da noite. A escolinha fica na rua Vicente da Fontoura, quase esquina com a rua Santana, e tem um afluxo enorme de carros naquele horário. Além disso, exatamente do outro lado da rua existe uma parada de ônibus e um posto enorme de gasolina, além do movimento de pedestres.

Ela parou o carro e percebeu que dois rapazes, com uma aparência classe média se aproximaram, ambos brancos, idades em torno de 20 a 25 anos. Como em Porto Alegre está um clima gélido, eles trajavam casacos e vinham conversando normalmente. Um deles aproximou-se da Ana e disse rapidamente, em voz baixa “a chave, a chave”, deixando claro que queria o carro. O outro lhe apontou um revólver.

Nesse momento ela gritou. Não por socorro, mas simplesmente pelo choque. Conhecendo a Aninha como conheço, foi um grito primal. Os dois entraram no carro e saíram com o máximo de velocidade e com as luzes apagadas.

Havia uma professora da escolinha do outro lado da rua, na parada de ônibus, que atravessou e prestou assistência a Aninha, assim como o fizeram dois rapazes do posto de gasolina em frente. Como a chave do nosso apartamento estava no Gol, Aninha teve de voltar à pé para casa, a umas cinco ou seis quadras de distância, pois levaram igualmente bolsa, dinheiro, documentos, etc.

Vindo da faculdade, quando cheguei no prédio, encontrei-a, com uma amiga comum. Aninha me contou o que ocorrera, e fomos à delegacia registrar o fato; enfim, tomamos todas as providências possíveis. Agora estamos esperando notícias. O carro está segurado.

Mas por que escrevo isso? Porque, no momento em que ela gritou, o assaltante que estava com o revólver poderia ter disparado. E seria um tiro à queima-roupa, a menos de dois metros de distância. Então fico grato ao assaltante, pelo fato dele ter usado o revólver somente para intimidar.

A talvez vinte minutos atrás, estávamos os três – eu, Ana e Matheus – em casa, em segurança, tomando um café quente, fazendo um lanche. Ao vê-los os dois, realmente as coisas passam a tomar as proporções devidas. Roubaram nosso carro, mas os três estávamos reunidos.

As reações de raiva e de angústia foram superadas. Um carro é apenas um carro. Nada mais, nada menos. O que realmente importa estava ali, ao alcance da mão, do carinho, do abraço, de um beijo.No fundo tenho uma imensa pena de dois rapazes que se valem de um assalto. Eles estão, de modo muito contundente, traçando uma vida de violência, de agressão, de tristezas imensas. Nesses casos, sem dúvida, os bonobos são bem mais inteligentes.

[1] Os bonobos são uma espécie de primatas – os outros são o orangotango, os gorilas, os chimpanzés e os homens-, cujos hábitos são retratados no livro “O Macho Demoníaco”, de Wrangham e Peterson, Ed. Objetiva, e que investiga as origens da agressividade humana. HILTON BESNOS

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s