O velho

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Velho, velho, por onde andastes?
Quais os caminhos percorridos,
o que querem dizer, gritar,
exclamar, chorar
cada uma das rugas
que te desenham um rosto marcado
e coberto de histórias?

Velho, velho, já solitário,
tendo por companheira
as suas lembranças e as (des)construções
que te adornaram a passagem da vida
e te fizeram assim,
como um pássaro,
pousar no teu presente.

E porque velho, te pergunto:
porque esse olhar perdido,
essa vontade de ser o que já foi?

Voltar para onde, retomar que caravelas,
se portos não há mais,
se distâncias engoliram teus oceanos,
se domados estão os teus cavalos alados
e tuas mulheres de densas carnes?

Onde estarão agora tuas mulheres, velho?
onde os olhos de paixão que tanto atormentastes,
onde as quentes umidades onde saciastes teus desejos?
por que estradas se corromperam teus sonhos,
que já não tens os toques suaves,
a nudez descomposta e o frenesi da luxúria?

Para onde as mandastes, velho?
que forma destes
para consumir as mãos que te acariciaram,
as bocas que te devoraram em plena satisfação?
onde estarão as mulheres que tivestes,
que desbragadamente usaste,
onde andarão?

Numa esquina qualquer elas te espreitam,
elas continuam sabendo de ti,
mas tu és apenas uma foto,
uma reminiscência,
recordações boas ou más,
é no que o tempo transformou
teu sexo em riste.

E dessas mulheres, velho,
quantas estariam aqui contigo,
e deitariam ao teu lado nas noites ocas,
se não as tivesses espantado,
se não as tivesse desprezado,
se não as tivesse humilhado?

Uma,
ao menos uma para ser testemunha
do que tu fostes,
para te acalentar nos momentos
em que a solidão de tudo te corrói a alma,
te embaça os sorrisos

pelo menos uma que estivesse aqui,
para cantar as tuas glórias
e para zelar pelo teu presente…

Mas não, estás só, terrivelmente só,
tão só que a solidão
transformou-se na amante triste
com quem compartilhas tua intolerância.

A solidão, velho,
velho homem de rugas desenhadas,
tão-só ela é tua companheira,
enquanto, aqui e ali.
uma fumaça azul de cigarro
desenha fugazmente
o tropel que o tempo,
incontinenti,
arremete contra ti.

Hilton Besnos

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