As janelas de Edward Hooper

Janelas podem ser vãos em paredes de medo, dor, aniquilamento, ruptura, segredos, erotismo. As de Edward Hopper nos remetem a isto e algo mais.

Millu Leite publicou em Artes e Ideias

Tive a oportunidade de ver algumas das famosas telas do norte-americano Edward Hopper (1882 – 1967) no Museu Thyssen-Bornemisza , quando estive em Madri, três meses atrás. Fiz uma visita muito rápida ao museu, pressionada pela escassez de tempo que me restava na cidade. Mas na pequena sala destinada à sua obra me esqueci das horas, me detive e, confesso, relutei em partir.

Passaram-se os meses e o breve comentário de uma amiga sobre a luminosidade de uma foto me trouxe de volta o pintor. Senti saudades dos minutos que passei com seus quadros e esse sentimento me impeliu a este post e a uma observação inicial a respeito das janelas pintadas por Edward Hooper. Considerando os efeitos produzidos pela luz de uma janela numa cena, creio que ficamos com o óbvio: a incidência dela traz informações que revelam uma gama extensa de emoções e intenções do artista assim como imprimem no observador uma miríade de sensações. A luz que penetra traz em si, estranhamente, todo o mundo exterior que uma janela pode encerrar.

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Mas e a janela, o que significa uma janela? Há uma infinidade de telas de Hopper em que elas estão ali, abertas, fechadas, vistas pelo lado de dentro, pelo de fora. A definição de janela segundo um dicionário é: “abertura ou vão na parede externa de uma edificação ou no corpo de um veículo, que se destina a proporcionar iluminação e ventilação ao seu interior”. Hum… ventilação, iluminação, vejo aí uma inclinação ao otimismo. Onde estão o cerceamento, a clausura e o isolamento? Um dicionário, é claro, não tem o dever de se estender por caminhos tão obscuros. Deixemos isso para os artistas e escritores. Janelas podem ser vãos em paredes de medo, dor, aniquilamento, ruptura, cumplicidades, artificialismos, frivolidades, segredos, suntuosidade, erotismo…

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As de Hopper nos remetem à solidão, ao recolhimento, e surgem como um convite opressivo à vida de fora (quando vistas do lado de dentro), ou como a incapacidade de penetrar seja o que for (quando vistas do lado de fora). Vazio, reclusão, os vãos nas paredes de Hopper falam da impossibilidade de contato com o outro ou da superficialidade desse contato, intermediado pelo mergulho de seus personagens em si mesmos, pois o outro muitas vezes existe, sim, mas está também absorto em seu mundo interior, reflexivo, débil, ainda que certa luz o aqueça, o apazigue, o acarinhe ou simplesmente o sonde.

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Arrisco-me a ir somente até este ponto. Deixo o aprofundamento para especialistas, e desde já indico um artigo muito bom de Marcos Kurtinaits, publicado na revista Pupila. Ele, entre coisas, afirma: “Se o cinema deve muito de sua narratividade às possibilidades da montagem, nos quadros de Hopper o grande narrador é, sem dúvida alguma, a luz. Com frequência, a luz delimita em seus quadros espaços diversos, é ela que nos permite ler um ambiente com um determinado sentido e outro, diferentemente iluminado, com sentido oposto”.

fonte.

© obvious: http://lounge.obviousmag.org/parabolicando/2013/11/as-janelas-de-edward-hooper.html#ixzz3lidgBoQI
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