Todo Deus é sagrado

“Ixora” (Ishvara, meaning Shiva) being worshipped as a lingam, from the influential Picart series; *a very large scan of this engraving*

Source: ebay, May 2002

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Ixora (Ishvara) or Shiva, and his son Quenevadi (Ganapati), another print from the Picart series (1722); click on either image for a very large scan. For sources, compare two views by Philip Baldaeus, from ‘Nauwkeurige beschrijving Malabar en Choromandel, derz. aangrenzend rijken, en het machtige eiland Ceylon’, Amsterdam, 1672: *upper image*; *lower image*

Todo deus é sagrado

Em suas 250 gravuras sobre religiões de todo o mundo, Bernard Picart contribuiu para a tolerância em pleno século XVIII

Lynn Hunt e Margaret Jacob (Tradução: Rodrigo Elias)

1/8/2013

Em seu tempo, o francês Bernard Picart (1673-1733) era um famoso gravurista. Ele se orgulhava da sua habilidade de capturar a essência de reconhecidos mestres europeus da pintura, tais como Reembrandt e Rubens. Colecionadores ao redor da Europa procuravam as gravuras e as águas-fortes – técnica de gravura a entalhe – que fazia daquelas obras. Sua mais duradoura reputação, no entanto, é consequência de uma obra muito diferente: os sete volumes do Cérémonies et coutumes religieuses de tous les peuples du monde, publicado em Amsterdã entre 1723 e 1737.

  • As 250 pranchas de gravuras representavam todas as religiões conhecidas dos europeus no início do século XVIII. Quase sempre nomeados simplesmente de “Picart”, pois apenas o nome do gravador aparecia na página de título, os volumes chamavam a atenção para a diversidade de experiências religiosas ao redor do mundo. O trabalho levantava questões fundamentais sobre o significado da religião e sobre ostatus especial do Cristianismo.

    O texto, composto pelo editor Jean Frederic Bernard (1683-1744), sem dúvida teve influência sobre leitores do século XVIII, mas as gravuras eram o grande atrativo para os compradores da elite da época e para aqueles que veriam versões amenizadas durante gerações. O poeta romântico inglês Robert Southey – autor de uma famosa História do Brasil, publicada em Londres entre 1810 e 1819 – escreveu em uma carta em novembro de 1812: “eu cheguei a Picart quando eu tinha uns 15 anos de idade e logo tive conhecimento dos deuses da Ásia e da América bem como aqueles da Grécia e de Roma antigas”. Southey celebrava “Picart” como um dos seus livros favoritos.

    Embora Bernard Picart nunca tenha escrito nada sobre o programa visual para os volumes, ele claramente queria manter o equilíbrio entre estética e precisão. Suas representações de cerimônias religiosas precisavam ser bonitas, pois, além de as pranchas cobrirem todas as religiões conhecidas no mundo, ele também estava lutando por reconhecimento como um tipo de pesquisador científico. Picart tencionava desenhar “a partir da natureza”, isto é, de modelos da vida real, e como consequência ele carregava seu bloco de desenhos para onde quer que fosse.

    Ele não pôde finalizar todas as gravuras judaicas a tempo porque não conseguiu permissão para comparecer a um jantar da Pessach, a cerimônia judaica que celebra o Êxodo do Egito. Após quatro anos de solicitações infrutíferas, Picart foi finalmente convidado à casa do principal judeu sefardita – ou seja, dos descendentes originários de Portugal e Espanha – em Amsterdã. As pranchas que resultaram deste encontro são ainda hoje reproduzidas como documentos da vida dos judeus do século XVIII.

    Para retratar práticas religiosas não europeias, Picart precisou se apoiar em outros livros e impressos. Ainda assim, não mediu esforços em sua busca por precisão. Na seção sobre religiões sul-asiáticas, ele usou miniaturas mongóis que havia visto alguns anos antes. As miniaturas pertenciam ao conde Giovanni Antonio Baldini, um diplomata italiano que as havia adquirido enquanto participava do Congresso de Utrech, que pôs fim à Guerra de Sucessão Espanhola em 1713.

    Uma vez que imagens indígenas normalmente não estavam disponíveis, Picart precisou se basear em gravuras produzidas por artistas anteriores. Às vezes ele simplesmente copiava aquelas feitas por Theodor de Bry e seus filhos, ilustradores de vários relatos de viagens às Américas, Ásia e África, ou aquelas dos artistas holandeses Coenrat Drecker e Jacob van Meurs. Quando se tratava de exatidão científica, reproduções não consistiam plágio aos olhos de Picart. Para este fim, ele acumulou uma grande coleção de livros de viagens em várias línguas. Possuía até um livro escrito em caracteres chineses, utilizado em uma das gravuras sobre a China.

    Fosse escolhendo quais imagens copiar, alterando as mesmas ou criando novas, Picart pretendia tornar deidades e práticas estrangeiras palatáveis aos observadores europeus. Conseguiu isso ao adicionar paisagens ou elementos arquitetônicos familiares, colocou divindades estranhas em pedestais clássicos, excluiu cenas de grande violência desenhadas por seus predecessores, promoveu um senso de identificação com aqueles desenhados, e fez comparações sutis entre rituais cristãos e pagãos.

    As duas cenas de adoração inca ao sol, no terceiro volume do Cérémonie, são um bom exemplo. Na imagem do alto os participantes estão acendendo o fogo sagrado na véspera do seu festival do sol, e na de baixo eles caem em adoração no primeiro dia do festival. Picart enquadra a cena superior com arquitetura e paisagem clássicas, e a inferior, com um pastiche de casas de estilo tardo-medieval europeu, um portão, uma torre e uma cúpula de igreja italianizante. Os homens incas de saiotes colocados no primeiro plano de ambas as imagens não parecem estranhos ou bizarros. Eles lembram figuras masculinas encontradas nos trabalhos de dois dos seus pintores favoritos, Rafael e Annibale Carracci.

    Quando consideradas como um todo, as imagens de Picart criam a categoria “religião”. Enquanto seu texto solto às vezes viaja pelas tangências, as imagens mantêm o foco nas cerimônias mais comumente encontradas – rituais de nascimento, casamento e morte, e grandes procissões – ou nas práticas mais incomuns, abrangendo os procedimentos secretos para a eleição de papas a sacrifícios humanos no México. As imagens transformaram a religião de uma questão revelada a um pequeno e seleto grupo de povos de Deus (judeus, católicos e protestantes) em uma questão de práticas culturais comparáveis. O trabalho completava um processo iniciado no século XVII, que crescentemente via a religião como uma categoria separada no que diz respeito aos seus próprios rituais, costumes e, normalmente, a algum tipo de clero. Tal “segregação” da religião resultaria em uma limitação do seu status.

    Bernard Picart não nasceu um “subversivo” religioso. Filho de um bem-sucedido gravurista católico parisiense, foi educado na Academia Real Francesa e rapidamente ganhou uma reputação internacional por suas gravuras. Quando sua primeira esposa, uma católica preeminente, morreu em 1708, Picart decidiu que era o momento de emigrar. Ele vinha lendo secretamente textos calvinistas e se converteu ao protestantismo após chegar à Holanda, no final de 1709 ou início de 1710. O calvinismo era ilegal na França desde que Luís XIV proscrevera sua prática, em 1685.

    A visão de Picart sobre religião era pouco convencional. Ele ingressou em um grupo secreto chamado Cavaleiros do Júbilo, uma loja proto-maçônica que unia uma seleção cosmopolita de jornalistas e editores livre-pensadores. Um deles publicaria o mais notório manifesto do século,O Tratado dos Três Impostores, sendo os três Moisés, Jesus e Maomé.

    Não está claro se Picart se considerava um ateu, posição perigosa para se sustentar publicamente na época, mas ele lia extensamente escritos científicos, filosóficos e religiosos. Sua biblioteca pessoal de cerca de 2 mil títulos, coleção imensa para a época, incluía não apenas literatura de viagem, história, polêmica religiosa e sermonário liberal protestante, mas também Descartes, Newton, Hobbes, obras raras de Giordano Bruno (queimadas em Roma em 1600 como heréticas) e os escritos de Gabriel Naudé e Giulio-Cesare Vanini, filósofos libertinos do início do século XVII .

    É mais provável que se pensasse como um panteísta – crença segundo a qual Deus está em tudo, em cada elemento do universo – ou um deísta – que acredita na existência de Deus, mas não aceita a religião como uma revelação divina. Ou até mesmo um crente em um tipo de religião primitiva, original, que repousava na essência de todas as religiões encontradas ao redor do globo. Tais crenças fariam da tolerância religiosa a mensagem implícita e mais emblemática de Céremonies et coutumes religieuses de tous les peuples du monde. A diversidade de crenças humanas deveria ser estudada e celebrada, nunca esmagada em nome de uma única.

    Lynn Hunt é professora da Universidade da Califórnia e autora de A invenção dos direitos humanos: uma história(Companhia das Letras, 2009). Margaret Jacob é professora da Universidade da Califórnia e autora deBernard Picart and the turn to modernity (De Achttiende eeuw, vol. 37, 2005).

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