Sofro de crise temática

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Ode ao homem pós-moderno, ou melhor, aquele que fala de tudo e não fala nada, aquele que sofre de crise temática… aquele que diz como Oscar Wilde “Não tenho nada a declarar a não ser a minha genialidade”. (Nem sei se é dele, peguei na internet).

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Não tenho nada para dizer, estou sofrendo uma crise temática, então é melhor que eu fique calado. Opino na internet, e como eu não tenho nada para dizer, eu digo qualquer coisa. No momento sofro uma crise, então não converso, apenas respondo as pessoas ao meu redor como uma vaca “hmmm”. Ultraje rigor já dizia em sua música, a Nada a declarar, “Esse nosso papo anda tão furado/É baixaria, dor de corno e bunda pra todo lado/Eu quero me esbaldar, quero lavar a alma/Quem sabe, sabe; quem não sabe bate palma”.

Todo mundo fala a todo tempo, e parece que ninguém diz nada, todo mundo opina sobre tudo, mas parece que ninguém sabe de nada. Todo mundo fala com todo mundo, mas parece que ninguém se escuta.

No último livro escrito por Milan Kundera, A Festa da Insignificância, retrata logo no início o personagem Alain sentado em um banco de uma praça observando as mulheres passarem, ele inicia ali uma filosofia, um pensamento, que é sobre o umbigo das mulheres. Nossa sociedade contemporânea, ou melhor, pós-moderna como Lyotard conceituou, fala e opina o tempo todo; basta fazer uma pesquisa rápida pela internet que encontrará qualquer coisa, o que nos dá a impressão que não existe nada novo para ser falado, nada que não tenha sido dito, tudo alguém já falou; então, no que me resta pensar? Filosofar? Se não tenho nada para falar, se não tenho nada para filosofar, filosofo sobre o trivial, o insignificante, o umbigo. A Crítica de Milan Kundera em A insignificância do ser é no quanto estamos o tempo todo falando do insignificante, e o quanto somos insignificantes. “Na vida, as pessoas se encontram, conversam, discutem, brigam, sem se dar conta que se dirigem umas às outras de longe, cada qual de um observatório situado num lugar diferente do tempo”, diz Ramon, personagem de Kundera no mesmo livro. A história não evolui, não muda, Kundera apenas repete cenas frívolas, angustiantes; trazendo de volta várias críticas de seus outros livros, que o ávido leitor de Kundera identificará, como por exemplo, o quanto a leveza é insuportável.

Bauman, sociólogo polonês, dirá que se o passado foi um fracasso, como a crise das grandes narrativas e, o futuro é cada vez mais incerto, então o que nos resta é somente o presente, no entanto, mesmo o presente é incerto, e é por isso que sou inseguro, preciso de uma boa foto, preciso de ‘curtidas’, preciso vender uma imagem de quem sou, e quando se vende, a propaganda é mais importante que o produto. “Indivíduos frágeis” destinados a conduzir suas vidas numa “realidade porosa”, sentem-se como que patinando sobre gelo fino e, “ao patinar sobre gelo fino”, observou Ralph Waldo Emerson em seu ensaio Prudence, “nossa segurança está em nossa velocidade”. Indivíduos, frágeis ou não, precisam de segurança, anseiam por segurança, buscam a segurança e assim tentam, ao máximo, fazer o que fazem com a máxima velocidade. Estando entre os corredores rápidos, diminuir a velocidade significa ser deixado para trás; ao patinar em gelo fino, diminuir a velocidade também significa a ameaça real de afogar-se. Portanto, a velocidade sobe para o topo da lista dos valores de sobrevivência. (Bauman, Modernidade líquida).

Amanhã posso encontrar uma mulher mais bonita, que supra minhas necessidades, que caiba melhor nos meus padrões de beleza, então porque me apegar agora? O futuro me parece incerto, e o cômodo é ser superficial; o mercado dos prazeres humanos.

Tudo parece nada muito certo, o átomo antes, com Leucipo e Demócrito, era indivisível, então descobriram os prótons, os elétrons, e os nêutrons. Descobriram então os Quarks, o neutrino, e o glúon. Onde isso vai parar?

Somente parece, não tenho certeza de nada. Na verdade, não tenho muito o que dizer, e para garantir esse texto coloco qualquer coisa , novamente Ultraje rigor, porque estou ficando entediado:

Esse nosso povo anda tão chutado

Quando não é um vereador roubando, é um deputado

Eu quero me esbaldar, quero lavar a alma

Quem sabe, sabe; quem não sabe bate palma.

Eu não tenho nada pra dizer

Também não tenho mais o que fazer

Só pra garantir esse refrão

Eu vou enfiar um palavrão (…)

© obvious:

http://obviousmag.org/cronismos_anacronicos/2015/sofro-de-crise-tematica.html#ixzz3p1oqJeig
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