Reflexões sobre o “deboísmo”

Uma análise simples sobre a filosofia “Deboísta”, e a onda de discussões cada vez mais violentas disseminadas na internet atualmente.

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Desde o nascimento da quase indispensável internet, as redes sociais mantiveram o poder de viralizar situações, crenças, revoltas, discussões. As páginas do facebook vieram para ser o que as comunidades do falido Orkut um dia foram: Espaços para encontrar pessoas que dividem o mesmo pensamento que você, comparar e debater sobre seus pontos de vista e, sendo utilizado também com freqüência, pelas pessoas que querem saber mais sobre você, como uma maneira de determinar o tipo de grupo a qual você pertence, ou adivinhar o seu caráter através de posts aleatórios, e de suas ideologias.

Muitas páginas trazem apoio a lutas sociais, ensinam a problematizar, esclarecem sobre tópicos importantes, são espaços abertos para discussões culturais, compartilhar informações sobre crenças ou hobbies. Algumas servem para um único propósito: criticar os outros. A vida costuma ser um amontoado de fases. Quando amadurecemos naturalmente, as causas sociais das pessoas, suas diferenças musicais, comportamentais, ou de estilo, costumam deixar de nos incomodar. Ou deveria ser assim. Mas a popularidade de páginas que criticam sem argumentos, que vivem a base de ataques torpes e sem fundamento contra classes, estilos e decisões de determinadas pessoas, me fizeram refletir sobre a importância de nos atentarmos a nossos comportamentos e revoltas sem qualquer fundamento.

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Quando conheci algumas páginas sobre o “Deboísmo”, achei divertido, que inofensivo e positivo, até: um apoio a uma causa que deveria ser máxima ao ser humano, debater com idéias relevantes e sem ofender o outro. A página, desde seu início, demonstrava apoiar o respeito que deve ser mantido em discussões na internet, e o uso de calma para defender determinados posicionamentos. Achei válido, afinal, quem nunca se alterou ao defender seu ponto de vista em algum post na internet, ou atacou ao menos um pouco agressivamente, alguém que criticasse sua ideologia? Eu, por exemplo, aceitei que já havia realizado muitas vezes essa façanha, e, mesmo sendo uma pessoa crítica e com tendência a problematizar, considerei o “deboísmo” uma reflexão válida para melhorar meus excessos, irritação, e maneira de lhe dar com as pessoas que são e pensam diferente de mim, algo que geralmente precisamos exercitar. Acalorarmos-nos nas discussões e acabar partindo para ofensas, é algo que pode acontecer às vezes, e não é muito positivo. Porém nos últimos tempos, a filosofia “Deboísta” foi atacada por diversas pessoas, que encaravam a teoria de maneira diferente, como forma de silenciar grupos, impulsionar a permanecer em estado de estagnação e uma maneira de se sentir superior ao outro. Ao ver minha linha do tempo bombardeada por posts de revoltas contra o “deboísmo” e criticando quem curtia a página, decidi buscar o ponto de vista destas pessoas, conversando sobre o assunto, e lendo textos realmente interessantes sobre pessoas que pensavam diferente de mim. Cheguei a uma maioria que pertencia, de alguma forma, a dois estilos gerais de pessoas, embora separar pessoas tão diferentes em dois grupos não seja a coisa mais sensata do mundo. É só uma maneira de ilustrar as situações neste caso isolado, ou comportamentos.

Os pertencentes a grupos sociais, ou os defensores de ideologias com propósitos revolucionários, alguns dos quais eu mesma participo, afirmavam ser contra pelo seguinte motivo: Alguns deles foram atacados por pessoas que se diziam “Deboístas”, mas usaram a filosofia como forma de silenciamento, outros encararam o “movimento” como um influenciador de aceitação e estagnação em seus problemas, visão que achei bem válida e interessante. A meu ver, e do ponto de vista de grande parte das pessoas “de boas” que conversei, problematizar é necessário, assim como argumentar.

O que deve estar sempre presente é coerência e respeito. Portanto pessoas que usam o “Deboísmo” como silenciador, ou desculpa para não se manifestar diante de situações problemáticas que envolvem o outro, de fato está deturpando a idéia inicial, o que é comum e acontece dentro de qualquer movimento, independente de sua vertente ou defesa. Mas isso não significa que o movimento inteiro seja ruim.

Fica aqui uma sugestão para quem teve uma experiência ruim com alguma pessoa que se diz “de boas”: busque entender o pessoal que tenta seguir a filosofia como um todo, e não discriminando a ideia geral por causa dos indivíduos que a corrompem. Lembrem-se que em seu movimento, seja ele qual for, também tem este tipo de pessoa, e que elas não definem individualmente, o que vocês são como um todo. A idéia do “deboísmo” tenta levar as pessoas à prática de respeitar opiniões diferentes e debater com harmonia, claro, no caso em que as ditas opiniões não forem baseadas em preconceitos, ou ataques sem sentido. A filosofia “deboísta” tenta levar as pessoas a apresentar seus pontos de vista e tentar manter a calma nos debates racionais, ensinando as pessoas que não compreendem sua mensagem, mas obviamente, há pessoas que não querem ouvir ou aprender. Essas se encaixam no segundo grupo que será citado, e, geralmente, não merecem perda de saliva, ou tempo. Só querem causar polêmica, descontar frustrações de vida em redes sociais e em pessoas que buscam ser melhores ou ajudar em algum movimento. São os “Haters” frustrados. Esses criam páginas com o único propósito de criticar as causas alheias, os gostos, ou o jeito de ser das pessoas.

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É uma maneira amarga de lhe dar com a própria frustração de espírito, e é bem diferente de problematizar. É criticar sem fundamentos, e atacar pelo simples prazer de desestabilizar alguém. São aqueles que se sentem sem propósito, e então, para se sentir melhor, apontam as falhas nas ideologias alheias, em seus movimentos, uma maneira de justificar suas próprias faltas de atitude, ou exasperação gratuita. O fato é que todos nós somos falhos e confusos. O ser humano é, em geral, contraditório e muitas vezes volúvel, mas acho fundamental que tentemos ser pessoas melhores do que somos, a cada dia. Para mim, é isso que se trata o tal “deboísmo”: Tentar ser uma pessoa mais positiva, melhorar sua qualidade de vida, e a convivência com os outros, o respeito a diferentes pontos de vistas, e o debate consciente. Para mim se trata de uma forma de diminuir a onda de violência, cada vez mais estarrecedora, dentro e fora da internet. Depois de problematizar, refletir e conversar sobre o assunto, continuo achando válido, e uma boa iniciativa. Se você discorda do meu ponto de vista, tudo bem também. Opiniões são passiveis de discordâncias, e nem sempre estão certas ou erradas, apenas são diferentes. Este não é um texto científico. É baseado em conversas com várias pessoas diferentes, reflexões e conclusões.

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JANNINE DIAS

Designer gráfico obcecada por detalhes, devoradora de livros, tiete de objetos antigos, cinéfila de terror e apaixonada por qualquer indício de passado regado à chá e chocolate..
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