O mito da racionalidade

 

Em 30 de julho de 2006

1

Um dos melhores livros que tive o prazer de ler foi Televisão subliminar : socializando através de comunicações (Porto Alegre, Artmed, 1998, 288p.), de Joan Ferres, professor da Universidade de Barcelona, Espanha. Logo no início do livro, que não tenho às mãos agora, e portanto não consigo referenciar exatamente, o autor fala de alguns mitos sobre os quais nós, ocidentais, procuramos pautar nossa existência em sociedade. Um deles é o mito da racionalidade, segundo o qual a maior parte dos nossos comportamentos é racional, ou seja, passa pelo crivo da razão.
Dizendo de outra maneira, nós nos cremos muito racionais, ou seja, nossas ações são estruturadas dentro da razão. Para o autor isso é um mito: na verdade os nossos comportamentos são muito mais guiados pelo não-racional, pelas nossas emoções. No entanto, o pensamento e a ideologia standard ou conservadora nos leva a crer que devemos agir de acordo com a razão. Talvez da combinação entre culpa e realidade advenha uma boa parte dos problemas e dos prazeres que enfrentamos ou gozamos ao longo de nossas vidas. A realidade, contudo, seria construída, pontuada pelos mitos que desenvolvemos às custas da educação não formalizada e formalizada que recebemos durante nossas vidas e através das mediações de nossas aprendizagens com os outros, iniciando com as nossas primeiras visões e as construções psicológicas da libido, como considera Freud ou pela metáfora do espelho, segundo Lacan.
Um dos mitos, justamente o da racionalidade é muito mais uma herança sócio-cultural do que uma realidade em si. Somos todos muito mais a parte submersa do iceberg do que sua parte emersa. Somos muito mais a inconsciência que buscamos a tantos esforços mascarar do que a racionalidade que ostentamos como um tigre de papel.

2

Hoje teve Grenal, que, se não se revestia de maiores preocupações para o Inter, então terceiro colocado no Campeonato Brasileiro de 2006, e aguardando uma partida decisiva contra o Libertad pela Libertadores da América quinta que vem no estádio Beira-Rio, trazia preocupações para o Grêmio, no sentido de que o mesmo vem apresentando uma campanha sofrível e não ganhou qualquer partida após o término da Copa do Mundo. O Inter resolveu jogar com um time misto, ou com um time B, enquanto o Grêmio colocou em campo o melhor que podia.
A par das provocações a parte, durante a semana, o Gremio trouxe para o Beira Rio a sua torcida, sendo que algumas das pessoas da mesma patrocinaram um vandalismo histórico no Beira-Rio, quebrando, depredando absolutamente tudo que podiam.
A racionalidade ficou por aí, perdida entre alguma rua entre a casa e o estádio, entre a educação e a barbárie, entre a inteligência e a estupidez? Não, ela ficou justamente onde sempre esteve e está, queiramos ou não: submersa por uma onda de emoções, por um trem de ira que talvez possa explicar porque somos tão atordoadamente violentos.

3

Os torcedores do Grêmio que queimam aqui a bandeira do Internacional somente vêem ali o gesto para desabafar seu ódio, sua raiva, sua impotência. Se fosse o contrário, seria igual. Esta uma face niveladora da violência: ela estupidifica em massa. Talvez fosse interessante citarmos aqui o que Simone de Beauvoir chamava de complexo de sardinha, o que seria muito apropriado. Também a violência solidariza sempre quem está em maioria contra quem está em minoria, quem detém o poder contra quem não detém o poder, quem é mais forte, quem é menos tolerante, quem adora bailar em determinados salões carpetados.

Por fim, lembro de um Conselho de Classe no qual falávamos sobre violência. Uma das professoras argumentava entender que uma violência na sala de aula sem que fosse esclarecida, ou seja, uma atitude laissez faire ante a violência era incentivá-la, comparando com o início de uma guerra. Foi muito criticada por duas colegas, que acharam um absurdo o que ela dizia. Apenas observei, embora tivesse vontade de dizer que a arrogância é um belo modo de se iniciar, se não uma guerra, pelo menos uma violência simbólica.

Mas citar Bourdieu seria demais. Melhor mesmo é ficar com as estupidezas do dia-a-dia. Nesse caso, satisfazer os egos com um Grenal é, talvez, um remédio conveniente. HILTON BESNOS

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