Estranhamento

(Etude sur le Reve de Venus – 1939)

Informação de moda trazida do início da produção imagética para a MODA. Este fotógrafo está entre os mais ousados da história da Imagem de Moda, não pelo fato de estar produzindo um nu nos anos 30, e sim pelo fato de estar antecipando uma tendência pós-moderna com tanta antecedência: o estranhamento. blog mistura fina https://baixoaugusta.wordpress.com/2010/10/22/anos-30-fotografo-horst-p-horst/

 

Uns dias atrás, mais ou menos um mês, tive uma nova abordagem de um mundo desconhecido. A sensação não foi a de acolhida, senão de estranhamento.  Observei que determinados padrões que não só eu conhecia como tinha ajudado a criar se esboroaram, se perderam nesse novo mundo. Algo assim como você se empenhar em plantar e cuidar de uma ameixeira e, após tanto zelo, colher uvas. Nessa situação você perde a referência do que ajudou a criar, especialmente quando a videira parece gritar: “mas foi você que me criou!”

” Não, eu não criei uma videira, eu criei você ameixeira, e ameixeiras não produzem uvas”, é o que digo, mas novamente parece que a videira não ouve. Ela insiste, mas nada pode modificar o meu passado, assim como não posso admitir o que não fiz.

Por outro lado me parece que isso não importa muito ao mundo que desconheço. Durante muito tempo investi afetividades, amores, carinhos e cuidei da ameixeira e agora ela vem me dizer que é uma videira!

Estranho mundo esse, local em que você, sabendo que deve alcançar a nado a outra margem do rio, se joga com vitalidade e força mais do que suficiente para enfrentar a correnteza, mas a cada braçada que dá, a margem se afasta na exata medida do esforço dispendido.

Os referenciais que você tentou imprimir perderam-se em um processo do qual você não participou. Apenas existem alguns deles, talvez aqueles que alertem a videira que na realidade ela é uma ameixeira, o que ela reluta em aceitar. Ela deixa de existir enquanto algo que foi criado, para se transformar em algo artificialmente manipulado. A questão crucial é que a agora videira, quer convencê-lo de que você deve embarcar no mesmo barco, ou seja, você deve admitir não apenas que a ameixeira é uma videira como ainda comer as ameixas sentindo o sabor de uvas…

Você deve se habituar com um mundo que não é mais o que você reconheça e que não repõe referências que sejam entendíveis por você. Não há uma interface possível porque estamos lidando com linguagens diferentes e, especialmente com comportamentos que partem de visões diferentes de mundo.

Você não tenta ser impositivo e se arrepende na medida em que elegeu tão-só questões argumentativas e éticas para estabelecer as suas relações de autoridade, e percebe que elas não funcionam mais, porque os argumentos, cada vez mais se perdem em uma complexidade diáfana. Tudo, em todos os aspectos se dilui, e você acaba, por fim, entendendo que pertence a uma tribo exógena.

Não há mais argumentos porque não há mais ideias a serem pensadas ou defendidas.

A voracidade do consumo, da aparência, da manipulação, do dinheiro, da posição social e do diuturno refazer de papéis sociais simplesmente cansa. Não se trata, inclusive, de falta de vitalidade para encarar de frente esse novo mundo, mas apenas se trata de falta de vontade de participar dessa mutação adolescente, especialmente se adultos estiverem se posicionando desta maneira.

Todos os valores importam, mas alguns muito mais do que os outros, e você os sustenta e mantém.

Preso em uma experiência de vida sólida, você não pretende participar desse happening de factoides do dia-a-dia, não precisa mais andar em meio à corda bamba para se fazer respeitado, em trocar de ideia como quem troca de roupa, o que não o faz inflexível, mas experiente.

Você já atingiu esse ponto, e o fez independentemente do que você possua em termos materiais. Não precisa mais ser sempre agradável para não desapontar sua mãe, seu pai, seus filhos, sua mulher e assim por diante. Não precisa mais da mutável aparência para ser aceito por a ou por b. Simplesmente você é.

Nessa altura civilizatória, em que a globalização e demais influências parecem contestar e contrastar questões comunitárias e locais, a tendência é a da pasteurização, por que, a despeito do que disserem, as novas gerações refletem uma cultura baseada na imagem, na apropriação de intencionalidades que são, em boa parte, artificialmente colocadas pela mídia e pelo mundo corporativo.

Se pensarmos, porém, veremos que não podemos imputar de modo vil, tais comportamentos semi-programados de consumismo e de uma forçada autoimagem somente aos jovens.

Os adultos, do mesmo modo, compartilham e desejam igualmente um status que busca a juventude, não apenas em termos de saúde, mas, por igual, em face socialmente reconhecida como se foram jovens. A síndrome não é somente a da Cinderela mas, por igual, de Peter Pan.

Para tanto, abrem-se portais para os efeitos da publicidade e da propaganda e, em boa parte, assumem os adultos a incapacidade de manter-se em uma posição mais madura, para abrir uma nem sempre saudável competição com os jovens. Não raro vemos um desperdício de inteligência sendo manipulado de maneira quase grotesca, com os aplausos dos adultos, que, em boa parte estão razoavelmente convencidos de que valores estão igualmente em mercancia.

Afinal, não é o élan que sustenta o sistema, mas o dinheiro que lhe é aportado por quem participa do banquete do consumo, visto, aqui, como algo muito mais amplo que poderíamos supor. De todo, jovem ou adulto, desde que você tenha acesso ao mundo financeiro, bem vindo à tribo.

Por outro lado, talvez você opte por ser um dinossauro, ou, pelo menos, por não se incomodar com esse mundo de ofertas delirantes, que vão desde o sexo programado até as diversas prateleiras metafóricas e emblemáticas nas quais pessoas são mercadorias, e, como essas, tem um preço igualmente equivalente e um prazo de validade muitas vezes irresgatável. HILTON BESNOS

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