Sonhos sequenciados

Tenho tido uma experiência sui generis. De algum tempo para cá, tenho tido sonhos em seqüência, ou seja, de algum modo eu sei que são a continuação de outros, o que é uma grande novidade. Outra questão é que eu posso remontar um a um de modo consciente, o que significa que eu não os esqueço. Normalmente quando acordamos e somos impactados por um sonho, o lembramos por uns dias, no máximo, e o esquecemos. No meu caso, se posso dizer isso, eu sei a seqüência de cada um deles. Resolvi então escrever, para tentar apreender o significado dos mesmos, ou buscar alguma referência.

Tais sonhos me remetem a Porto Alegre; não a que eu conheço hoje, até porque sonhos são são exatamente GPSs. Há muitas distorções nos sonhos, como iremos ver. Vamos lá, a quem interessar possa.

Sonho 1

ANDANDO – Estou em Porto Alegre, ou pelo menos sinto que estou lá. Percorro uma avenida via que não tem fim, várias vezes. Nem sempre estou orientado, mas quero chegar, não sei porque motivo, ao centro. Não reconheço as outras ruas, também não as intersecções ou os semáforos. Pergunto a pessoas como chegar onde quero, mas as respostas ainda mais me desorientam, se isso é possível. Alguém me diz que devo seguir à frente e é o que faço. Vejo-me em nível de solo, mas também como se estivesse sendo filmado por um drone. Como se eu mesmo fosse o drone e estivesse observando toda a cena inclusive eu mesmo. Há algumas fábricas no caminho, mas o porto desapareceu. Simplesmente ando, até chegar em um túnel que em verdade lembra o túnel da Conceição, que na realidade sai do final do Bom Fim e vai até o centro. No entanto, esse túnel é incrivelmente maior que o original, e passa o metrô por ele, um trem que vai recolhendo pessoas e deixando outras no seu caminho. Como se o metrô de Porto Alegre estivesse dentro do túnel da Conceição. Subo, desço, vou até as galerias do túnel, mas não consigo pegar o trem, que já vem para me atropelar e seu caminho de monstruosidade tecnológica. Passo um bom tempo me escondendo em galerias, descendo e subindo escadas fétidas, ansiando por respirar um pouco de ar puro. Em minha angústia e desespero consigo entrar em uma porta para atingir a superfície, quando o trem-metrô praticamente me suga e me joga em uma poltrona vintage. Outra viagem infernal e o veículo mais parece uma montanha russa, que não para de acelerar e bufar como um animal enlouquecido, e eu dentro dele, me sentindo cada vez pior. De quando em quando, eu, o drone, observo toda a cena, mas não me é permitido intervir ou dizer nada. Meus gritos caem no vácuo. Acordo.

Sonho 2

NO  PRÉDIO – Estou em um prédio qualquer administrativo. Há elevadores, mas não sei exatamente o que procuro ali. Pego um à esmo. Ele pára no meio do caminho entre dois andares, e suas paredes começam a distorcer. Uma delas some e estou à beira de um abismo. Tenho muito medo disso, porque a tendência, quando uma porta de elevador se abre, a ordem que o cérebro te manda é “saia pela porta”, e esse mandamento é forte demais para que eu possa detê-lo. Meus pés se encaminham para o nada, embora minha consciência mande parar. Num último último momento, meu senso de auto-sobrevivência ordena que eu recue. Parênteses: detesto-roda gigante, porque meu instinto me manda sair. Levantar-me e andar, o que me levaria para a morte ou, pelo menos, para uma lesão grave, dependendo da altura. Em 2013 estávamos no Beto Carreto World, na cidade de Penha, em Santa Catarina. A maldita roda-gigante parou comigo e com a Ana  no ponto mais alto e eu estava lá, sentado em uma poltrona e com as mãos crispadas sobre seus braços, olhos fechados para não ceder à tentação de levantar e sair. A sensação é de que você vai fazer exatamente o que não deve, mas, mesmo assim não consegue contê-la. Voltando para o sonho, no mesmo tal sensação de terror é maximizada. Até acordar, entrei em dezenas de elevadores, vi portas abrirem e fecharem, suas paredes se deslocarem, corredores se ampliarem, enquanto a angústia, o cansaço e o puro pavor aumentavam. Na verdade eu não sabia para onde estava indo, o que estava fazendo ali, e não entendia absolutamente nada. A única coisa que eu tinha certeza era a de que era um prédio que pertencia a alguma administração pública e que eu viveria por ali, levando sustos imensos enquanto paredes se deslocavam, coisas caíam pelo chão e absolutamente ninguém me informava nada. A ida para os elevadores passou a ser uma tortura, mesmo porque eu não tinha ideia do meu próprio destino. Houve finalmente o momento em que os elevadores distorciam tanto como se fossem simplesmente imagens em um espelho de parque de diversões e se transformavam no trem-metro do primeiro sonho, que me largava aqui ou acolá, para que eu descesse para outras galerias que não eram servidas por escadas, mas tão-só por elevadores. Fim do segundo sonho.

Sonho três

O HOTEL -Dias após racionalizei que os meus dois angustiantes sonhos se complementariam através desse último. Aqui eu estava em um hotel, mas, semelhantemente aos primeiros, havia uma música monocórdia de fundo, uma aflição, um desconsolo que não me permitia aproveitar nada do que havia em um exagero quase comovente: um ambiente lindo,  vinhos e bebidas exóticas que não desfrutava. Nada era motivo de apreciação e parecia que, novamente, meu destino era andar por dentro do hotel. Dali eu não saía, perambulando pelos cantos e belas decorações como um morto-vivo. Aqui, a referência do que antes não tinha aparecido: mulheres. Especialmente duas, e muito atraentes. Na verdade eu intuía que havia outras no hotel, mas não as via. Das duas, especialmente uma iniciou um jogo extremamente sutil de sedução, jogo que jamais se concretizou no sonho, no sentido de qualquer evolução. Sempre que havia a mais remota possibilidade de nos aproximarmos no sentido afetivo ou sexual, algo interrompia a evolução dos nossos sentidos. Sentidos, porque não se tratava, ali, de sentimentos. Mesmo no sonho, nada fazia acreditar que tínhamos um amor, ou algo assim. Éramos simplesmente estranhos que  se desejavam, mas tal desejo não chegava ao seu termo. Meu sonho transcorreu assim, entre incessantes subidas e descidas em escadas, em visitas às belas dependências do hotel e a uma fluidez que chegava ao desconforto, de tal modo que embora visse outras pessoas, em realidade eram trabalhadores ou trabalhadoras que ali ganhavam seu dinheiro. Era muito estranho, porque eu sabia que ali estavam circulando hóspedes, mas não os via, somente ambas as mulheres. Nesse clima onde o erotismo velado era disfarçado pelas inconveniências moralistas, e onde havia uma fumaça metafórica que parecia cobrir tudo, acordei.

Sonho 4

AVENIDA OSWALDO ARANHA, PORTO ALEGRE – Meu último sonho teve como cenário a Avenida Oswaldo Aranha em Porto Alegre, em um dia de inverno, no qual a umidade e a chuva eram contínuas. Começamos novamente como um drone, vendo toda a extensão da avenida, desde a esquina da Protásio até a entrada do túnel da Conceição. A cada ida e vinda a avenida parece se alargar um pouco mais, e crescer em comprimento. Como em um passeio aéreo na qual o que vemos se distorce e traz novas paisagens, mas sempre na mesma avenida. Então estamos na esquina do Pronto Socorro e nos damos conta de que estávamos conversando com três moças, na faixa dos vinte e dois, vinte e cinco anos no máximo. Havia algo entre elas que apontava que eu havia namorado com todas, e que, de modo fútil, havia dito que não as deixaria em hipótese nenhuma. O que fiz ou deixei de fazer não aparece no sonho, tão-só a referência. De repente as mesmas se afastam e reconheço uma quarta moça, essa sim, que vem me recriminar. Passo o sonho inteiro com uma sensação de ter iludido quem não merecia isso, e não existem argumentos que possa usar senão meus próprios desejos. De quando em quando olho para a avenida Oswaldo Aranha, e não vejo mais seu fim. De algum modo cai uma neblina, e apenas pressinto que jamais encontrarei seu final. O túnel da Conceição está tão distante de mim quanto estão as estrelas, escondidas em um mar de nuvens escuras. Meu sonho transcorre entre sentimentos de culpa, de desamparo e de arrependimento. Quando acordo, o sonho me vem tão vivo que parece real. HILTON BESNOS

 

 

 

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