O consumo da violência

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OVIOUS by Jóyce Bandeira

A cada nova tragédia somos bombardeados por notícias que exploram a imagem de forma desumana e sem nenhum respeito pela vítima. Estamos extrapolando todos os limites e virando consumidores inconscientes da violência.

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Todos nós já fomos impactados com uma imagem que anda movimentando as redes sociais. A foto de um menino, um anjinho, em uma praia na costa de Bodrum. Ele não estava brincando ou se divertindo com a família, ele estava morto! Vítima de uma complexa crise migratória que se torna cada vez mais caótico na Europa.

E então, alguém se viu no direito – ou dever – de compartilhar aquela imagem que se multiplicou de forma tão veloz nas redes sociais e portais de notícias. Em um momento da noite, enquanto olhava a minha timeline, fui impactada por esta imagem 30 vezes, sim eu contei, em menos de 15 minutos. Neste momento, eu quis gritar “Parem! Apenas parem de compartilhar a foto da criança morta!”. E eu gritei, na minha timeline, mas gritei!

Vocês já pararam para pensar porque temos essa necessidade tão intensa de consumir essa violência? Por que sim, o que aconteceu com essa criança e outros 12 ocupantes do bote que naufragou é um tipo de violência e a exposição que esta criança sofreu também. Eles não estavam passeando ou curtindo as férias em família, eles estavam fugindo de uma situação tão extrema onde a única saída era se arriscar em barcos clandestinos sem estrutura nenhuma na esperança de um futuro melhor. Esse barco virou, pessoas morreram e o corpo de uma delas foi explorado sem qualquer consciência.

Acreditar que são essas imagens impactantes que marcam a história e fazem a sociedade pensar na gravidade dos problemas sociais que vivemos está errado de tantas formas que não consigo descrever em apenas um texto. Que me desculpe o meu amigo de profissão, que diz fazer um serviço social, mas você está sendo sensacionalista! Sim, você está! Assuma que precisa de cliques, que precisa de views e que não está fácil competir com todas as possibilidades de atrair a atenção do leitor na internet. Sua comoção tem interesse!

Você compartilhou essa imagem? Por que você compartilhou essa imagem? E aí entramos em uma questão mais profunda que me incluo não como publicitária e futura jornalista, mas como pessoa. Por que a gente se interessa tanto em consumir essa violência? Por que precisamos contemplar a imagem deste menino morto na praia? Porque procuramos as imagens do acidente do cantor sertanejo? Porque procuramos as fotos do ciclista morto a facadas na Lagoa? Por que não conseguimos ficar satisfeitos com a foto quadriculada protegendo o rosto da vítima? Porque não ficamos satisfeitos em ler uma matéria, entender o ocorrido e os motivos que causaram aquele fato sem evidenciar a fragilidade da situação. Por que precisamos do sangue, da tragédia e do sofrimento? Parem de consumir esta violência!

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Você pode chamar de emoção, pena, indignação ou qualquer outro sentimento, mas a verdade é que independente de como seja representado, nós sentimos um tipo de prazer em consumir este tipo de imagem. E é a necessidade de suprir este tipo de desejo que faz com que os comunicadores extrapolem qualquer limite ético que tenha aprendido na faculdade ou nos anos de profissão.

Nós somos os clientes desta mídia e se isso aparece hoje é porque nós pedimos. Nós pedimos isso! A culpa é nossa por desejar este tipo de conteúdo e a culpa é dos comunicadores por satisfazer estes nossos desejos. Todos ficam satisfeitos neste universo da mídia e ninguém se preocupa em romper esse ciclo vicioso degradante.

Na semana passada, antes da notícia do menino, circulou na mídia a morte de uma das sobreviventes do ataque de 11 de setembro. Aquela mulher que se transformou na imagem mais famosa do ataque, a mulher coberta de poeira. Com certeza, a foto foi divulgada com objetivo de marcar a história e fazer a sociedade entender o que aconteceu naquele ataque, a famosa justificativa usada pela mídia para se enganar e enganar a sociedade que aquilo não é sensacionalismo. Mas você já parou para pensar como foi a vida da mulher depois dessa foto?

Como foi para ela acordar todas as manhãs, tentar sobreviver a todas as lembranças de um ataque terrorista e quando finalmente começa a encontrar um lugar calmo no seu coração para esquecer tudo aquilo, se depara novamente com a sua imagem em um momento de extremo desespero. Uma imagem que está no Google, no Facebook e em todos os sites de notícias.

Você já parou para pensar como a sua necessidade de consumir este tipo de sensacionalismo afetou a vida de Marcy Borders? Você chegou a perguntar como ela se sentia vendo a sua imagem circulando por aí?

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Mais uma vez, pare de consumir esse tipo de violência! Quando você acessa ou lê mídias que promovem a notícia desta forma está consumindo violência. Quando você compartilha vídeos de mulheres em momentos íntimos está consumindo este tipo de violência. Quando compartilha em seus grupos de Whats as fotos daquele acidente com vítimas está consumindo este tipo de violência.

Pare por apenas um minuto e reflita se você realmente precisa daquela foto para entender o que está acontecendo ali? Será que neste momento uma imagem vale mais que mil palavras? E se fosse você no lugar do pai daquela criança morta na areia. Se além de lidar com a indescritível dor da perda ainda tivesse que conviver com a situação de ver as fotos do seu anjinho que foi embora explorada pela mídia e por pessoas que você nunca viu. Faça em voz alta essa pergunta: E se fosse comigo?

Nós precisamos romper este ciclo! Como pessoas, precisamos desprezar este tipo de conteúdo e como profissionais não utilizar este tipo de exposição para transmitir a informação. Pode parecer meio utópico, mas eu acredito que nós precisamos ser os agentes desta mudança!

Desculpe o extremismo, o texto emotivo demais e o apontamento de culpados. Normalmente não sou assim, mas este espetáculo sobre as tragédias do cotidiano está passando de todos os limites e isso precisa parar. E é por isso que neste post não terá a foto de nenhuma vítima do consumo desta violência!

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