Tradição marxista na tragédia e na farsa

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Resenha

Tradição Marxista na Tragédia e na Farsa
Em sua mais recente obra, Slavoj Zizek busca analisar a articulação entre as crises do capitalismo e os seus potenciais emancipatórios, de modo a revelar a importância do papel da ideologia no sucesso ou fracasso da ideia do comunismo
por ALESSANDRA DEVULSKY TISESCU

Alain Badiou enxerga em Slavoj Zizek o único pensador que simultaneamente se aproxima de Lacan e defende, com vigor, a ideia do comunismo. A delicadeza magistral dessa construção teórica só é possível porque Zizek busca a fundamentação última de suas análises em um Hegel diferente, ainda desconhecido, que só aparece por meio de uma investigação lacaniana.

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PRIMEIRO COMO TRAGÉDIA, DEPOIS COMO FARSA
AUTOR: Slavoj Zizek
EDITORA: Boitempo Editorial (São Paulo)
ANO: 2011
NÚMERO DE PÁGINAS: 133

A releitura dos clássicos da política, da Filosofia, sem se esquecer da Psicanálise, parece ser sempre o primeiro passo de um autor que está preocupado com as emergências do mundo. Propor os problemas atuais a grandes pensadores que não vivenciaram as experiências da modernidade significa submeter a “verdadeira novidade do novo” à lente do que era eterno no velho. Para Zizek, esta lente eterna é o comunismo e Marx, o criador do principal arcabouço teórico na sua compreensão.

Em Primeiro como tragédia, depois como farsa Slavoj Zizek resgata grandes temas da tradição marxista como a ditadura do proletariado, as crises do capitalismo, a ideia de fetiche, a ideologia e a própria teoria do Estado, entremeando no texto, com um poderoso talento narrativo, conceitos importantes para a compreensão da teoria marxista concomitantemente à sua aplicação na análise de eventos históricos do passado e do presente. Como Marcelo Grillo afirma, Zizek não só é sensível às urgências políticas que se apresentam no tempo presente, como também empunha a tarefa de rever o passado, repensando os legados deixados pela história de modo indelevelmente crítico.

Inspirado no texto “O 18 de Brumário” de Marx, o autor parte em busca dos grandes fatos e personagens da história mundial que se repetem como eventos, “primeiro como tragédia, depois como farsa”, e encontra um quadro bastante significativo da nossa contemporaneidade – os ataques de 11 de setembro e a crise financeira de 2008, respectivamente. Para o autor, se a queda das torres gêmeas não foi suficiente para abalar a confiança dos políticos democrático-liberais, a crise econômica de 2008 – não surpreendentemente um produto da crise de 2001, e que agora se desdobra nesta crise de 2011 – criou um raro consenso entre a direita e a esquerda americana (consenso este que não se repetiu este ano graças ao terrorismo do “Tea Party”).

Não se trata de uma defesa da sangria intencional das classes populares em favor dos banqueiros que, após anos de especulação financeira desenfreada, viram- se protegidos pelas medidas do Estado. Aqui, Zizek segue a tradição marxista ao demonstrar que o Estado é uma figura central para o capitalismo, que é chamado a intervir sempre que o excesso capitalista causa uma assimetria perigosa em seu sistema, a ponto de colocar em crise a sua existência.

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Para o autor, se a queda das torres gêmeas não foi suficiente para abalar a confiança dos políticos democrático-liberais, a crise econômica de 2008 criou um raro consenso entre a direita e a esquerda americana

De fato, o que Zizek demonstra neste novo livro é que no atual estágio em que se encontra o capitalismo, as intervenções estatais que usam dinheiro público (dinheiro do contribuinte) para aplacar a crise, auxiliando bancos e os próprios especuladores, ocorrem como uma necessidade inevitável para a manutenção do mercado. Assim, de nada adianta apontar a “imoralidade” do ato sem pensar radicalmente (no sentido marxista) em como destruir um sistema que permite este nível de chantagem: mantenha-me ou milhões morrerão de fome. Por essa razão, a injustiça provocada pela ordem capitalista só pode ser afastada quando destruído o seu próprio engendrador – o capital, conclamando o autor: “obedeça, mas pense!”.

 Viver à beira do precipício é, para o capital, nada menos do que a exceção que se torna a sua ordem, a transparecer a racionalidade “irracional” de sua lógica, a sua razão instrumental como ensinara Adorno e Horkheimer. Sempre à espera da eclosão da próxima crise, o discurso liberal nem sequer pode defender os seus próprios pressupostos ideológicos, pois quando demanda a diminuição de impostos e de regulamentação da economia, está postulando a sua própria ruína.

Para Zizek, a ideologia do capitalismo que vivenciamos hoje já não se opera mais no modo sintomal tradicional como ensina a Psicanálise, no qual ao menos temos a esperança de que aquilo que foi reprimido volte como recalque, denunciando o conteúdo e seu disfarce. De modo distinto, o autor descreve um funcionamento muito mais fetichista da ideologia, portanto, bem mais refinado, que leva o sujeito a estar seguro de suas convicções porque são elas as responsáveis por permiti-lo viver uma vida “insuportável”. Como ensina Alysson Mascaro, a ideologia se impõe não só pelo que distorce do real, mas também pelo que afirma na realidade.

A riqueza do texto de Zizek neste novo livro é um convite ao leitor a refletir sobre aquilo que ele pensava do seu passado e das determinantes de seu futuro, razões estas mais que suficientes para se justificar e comemorar este lançamento.

Alessandra Devulsky Tisescu é advogada e professora. Especialista em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, mestre em Direito Político e Econômico e doutoranda em Direito Econômico e Financeiro . É autora do livro Edelman: althusserianismo, direito e política (Alfa-Omega)

 

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