Teatro de sangue – os assustadores espetáculos do Grand Guignol de Paris

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sábado, 8 de junho de 2013

Teatro de Sangue – Os assustadores espetáculos do Grand Guignol de Paris

Seis noites por semana e todo domingo à tarde, frequentadores do cenário teatral de Paris recebiam sua parcela de sangue, decapitação, desmembramento e torura. As cenas apresentadas no palco eram tão explícitas e realistas que médicos contratados pelo teatro ficavam à postos, prontos para administrar primeiros socorros com sais de cheiro e uma dose de brandy revigorante para os que desmaiavam.

Aqueles que sentavam nas primeiras filas recebiam respingos de sangue cenográfico (na maioria das vezes, embora sangue de animais também fosse usado) e sentiam a angústia de testemunhar quase que em primeira mão as mais grotescas torturas acontecendo a poucos metros de distância.
Haviam salas especiais abaixo das coxias onde os espectadores podiam se retirar, se eles ficassem muito chocados com os horrores apresentados. Não é exagero afirmar que desmaios e pessoas passando mal, literalmente urinando nas calças ou vomitando, era algo corriqueiro durante a apresentação. Dizem que mesmo o veterano militar americano, o General George Patton, que compareceu a uma performance durante a ocupação americana de Paris nos últimos dias da Segunda Guerra, admitiu sentir um tremendo incômodo diante do espetáculo. Pode ou não ser algo significante mencionar que Herman Goering, um dos arquitetos do regime nazista foi um grande entusiasta desse tipo de show.
Estamos falando do Grand Guignol.
O Grand Guignol (pronuncia-se guinô) surgiu em 1894 criado por Oscar Méténier. As performances ocorriam em um pequeno teatro de Paris, chamado Grand Guignol. Construído no início do século XIX, o prédio era originalmente uma capela. Um famoso padre parisiense chamado Didion, conhecido por seus discursos beirando o fanatismo e descrições do inferno e do suplício das almas, usava o púlpito de forma teatral atraindo um rebanho impressionado pela sua verborragia, isso até o dia em que a igreja pegou fogo. Alguns anos depois, o lugar em ruínas foi arrendado pelo artista Georges Rochegrasse, um pintor, cuja obra mais importante – a infame tela “Rape of the Sabine Women” (O Estupro das Sabines) causou sensação em uma exposição, em face das imagens gráficas de extrema brutalidade.
Méténier comprou o local depois que Rochegrasse partiu afirmando que as ruínas eram  assombradas. O agente teatral espalhou o boato e aproveitou a pesada arquitetura gótica para acentuar dramaticamente as estórias que já eram conhecidas em Paris. Ele tomou emprestado o nome “Guignol” de um crítico teatral popular na época, famoso por destruir a reputação de montagens teatrais. Desde o início o objetivo de Méténier era chocar e conseguir repercussão. Sua primeira produção foi levada ao público parisiense em 1896 e terminou com correria, pessoas passando mal e a polícia sendo chamada. Na peça, havia uma cena com a execução na guilhotina. A decapitação era reproduzida nos mínimos detalhes e com tanto realismo que parecia realmente ter acontecido diante de todos. Os espectadores, pegos de surpresa acharam que o ator havia sido grotescamente decapitado e a peça foi interrompida.
O teatro foi fechado temporariamente e Métérier multado, mas a repercussão já ganhava as ruas e todos queriam assistir a peça. Quando o Grand Guignol abriu novamente, as filas faziam volta na esquina. Sabendo que havia encontrado um filão rentável, Méténier passou a apresentar semanalmente novos espetáculos, tentando sempre superar o banho de sangue, horror e choque da peça anterior.
Em 1898, Métérier vendeu o teatro Grand Guignol para Max Maureyresponsável por transformar o teatro em uma verdadeira Casa dos Horrores. Dizem que Maurey media o sucesso de uma apresentação com base na quantidade de pessoas que desmaiavam durante a performance.
As peças, às vezes eram livres adaptações de autores clássicos do horror como Edgar Allan Poe. Outras eram escritas especificamente para o Grand Guignol. “A Marca da Besta”, uma das mais conhecidas apresentava a tortura de um leproso com tochas, “O Horrível Experimento” tinha em seu ápice uma cirurgia cerebral, em “O Guardião do Farol”, um homem enforcava seu filho acometido pela raiva. Outras peças tratavam de temas grotescos como necrofilia, lepra, sífilis. Horríveis torturas praticadas por sádicos eram o ponto alto de várias peças. Maurey havia adquirido instrumentos de tortura medievais originais e outros tantos haviam sido construídos com base em modelos que realmente existiram. Essas medonhas ferramentas eram empregadas nas apresentações acrescidas de truques de cena que passavam a sensação de absoluto realismo.

A peça intitulada “Um Crime na Casa de Loucos” obteve enorme notoriedade e foi um sucesso de público. Encenada inúmeras vezes, durante o auge do Grand Guinol entre os anos 1930 e 1940, o roteiro foi escrito por André de Lorde, um dramaturgo descoberto por Maurey e apelidado “O Príncipe do Terror”, que assinou mais de 100 obras. Ambientada em um manicômio, a peça contava a estória de uma adolescente que foi aprisionada na casa erroneamente e estava prestes a ser libertada. A notícia de que ela seria solta causa uma rebelião entre os internos, muitos deles maníacos com horríveis deformidades, que não querem permitir que a jovem, chamada Esperança, os abandone. Furiosos com a tentativa de fuga, eles a levam para as profundezas de uma masmorra nos porões do hospício onde encontram inúmeros instrumentos de tortura. Em uma das cenas mais terríveis, um dos internos, um demente que acredita que um pássaro vive dentro da cabeça da jovem tenta libertar o animal com um martelo e cinzel.

A peça era tão grotesca que ao longo das duas horas de apresentação, registrou-se certa noite um recorde de 38 desmaios entre os espectadores. Isso de um público com pouco mais de 80 pessoas.
Os sinistros efeitos especiais eram um segredo guardado a sete chaves. Um delegado de polícia apenas concedeu ao Grand Guignol alvará para funcionamento depois de ser informado como funcionavam alguns dos truques de cena. Isso para ter certeza de que ninguém era de fato morto. Mesmo o sangue artificial tinha uma fórmula secreta. Um dos cartazes do teatro alertava: “Nosso sangue é sempre fresco e os clientes que não quiserem levá-lo para casa em suas roupas, devem evitar os assentos próximos do palco”. O aviso nem sempre era levado em consideração: por vezes quem estava atrás também se sujava, não que isso fosse um problema para muitos espectadores. Ser salpicado pelo sangue no Grand Guinol era considerado uma honra.

Camille Choisy foi diretor do teatro entre 1914 e 1930, contribuindo com seu conhecimento de causa já que havia cursado a faculdade de medicina e conhecia muito de anatomia. Ele foi sucedido por Jack Jouvin, que suavizou um bocado as apresentações e diminuiou o choque de algumas peças depois que um espectador sofreu um ataque cardíaco fulminante. Durante a Segunda Guerra, o diretor passou a ser o cineasta britânico Alexander Dundas radicado em Paris e sua esposa, a comediante anglo-francesa Eva Berkson, que segundo o marido “era uma ótima vítima para as torturas, pois gritava como nenhuma outra atriz”.

A dupla esteve a frente do teatro no decorrer da ocupação nazista. Em 1943, uma das peças apresentou soldados alemães conduzindo sessões de tortura a civis, o que irritou as autoridades e obrigou o casal a fugir. Os nazistas substituíram o casal por outro diretor e o teatro continuou em funcionamento, atraindo multidões de curiosos. Após a guerra o casal retornaria ao teatro de forma triunfante.
Dentre as atrizes a se apresnetar no Grand Guignol, Paula Maxa talvez tenha sido a mais popular. Especialista em personificar vítimas ela ganhou fama como “a mulher mais assassinada do mundo”. Em vinte anos de trabalho, estreiando em 1917, ela esteve em cena mais de 10,000 vezes, sendo “assassinada” de 60 maneiras diferentes e “estuprada” pelo menos 3,000 vezes. Ela foi alvejada, torturada, estrangulada, esfaqueada, estripada, desmembrada, guilhotinada, massacrada, crucificada, queimada, envenenada e até devorada viva em cena. Em uma peça muito famosa, sobre a Inquisição Espanhola, Maxa foi “torturada” ao longo de uma apresentação especial que durou 8 horas.
Surpreendentemente, nenhum ator do Grand Guignol jamais sofreu um acidente em cena ou se feriu durante as apresentações. Para todos os efeitos os membros aceitos na companhia se consideravam uma grande família.
O Teatro Grand Guignol fechou as suas portas em 1962.
A audiência começou a diminuir após o fim da Segunda Guerra Mundial. Segundo o diretor teatral Charles Nonon, na época à frente da casa: “Nós nunca conseguiríamos igualar os horrores de Buchenwald ou Auchwitz em nossas peças. De certa forma, tudo o que fazíamos para chocar havia sido amplificado no mundo real”. Ademais, as pessoas pareciam estar enjoadas de sangue e horror, tendo presenciado muito daquilo nos anos mais medonhos da Guerra.
É claro, esse estilo de espetáculo foi copiado e encenado em vários países, obtendo sucesso e sendo considerado algo decadente e absurdo em vários cantos do planeta. Em alguns países espetáculos de grand Guinol ainda são proibidos por força de lei. A polêmica sempre seguiu o Grand Guignol onde quer que ele fosse apresentado.

O prédio do antigo teatro ainda existe em Paris, mas atualmente hospeda o International Visual Theatre, que apresenta peças para deficientes audio-visuais.

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