Duas caras na política, no cotidiano, na vida: o problema da consciência dissociada

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Duas caras na política, no cotidiano, na vida: o problema da consciência dissociada.

Márcia Tiburi

"A velha e a moça", imagem criada no século 19

“A velha e a moça”, imagem criada no século 19

Há um fator fundamental a ser analisado na formação política e cultural de nossa época. Trata-se da “consciência dissociada”. O termo consciência é complicado, mas significa basicamente o modo como as pessoas pensam. Consciência tem a ver com mentalidade. A mentalidade, por sua vez, é construída no âmbito social e coletivo. Ninguém pensa sozinho, mas pensa a partir de influências diversas. Filosofia, nesse contexto, é um modo de buscar um pensamento próprio, o que só acontece como busca que precisa ser levada a sério de um modo honesto. Se perdemos de vista os elementos “inconscientes” que regem nossas ações, corremos o risco de cair na dissociação da consciência que precisamos analisar com cuidado.

A consciência dissociada é aquela em que o que se pensa e o que se faz andam em desacordo. Ela diz respeito à contradições: um político que age contra o povo quando deveria agir a seu favor, um pastor que planta o ódio quando deveria promover o amor, um padre que prega o preconceito quando deveria pregar respeito. Podemos citar aquele cidadão, muitas vezes médico ou juiz, que esteve nas melhores escolas e recebeu a melhor formação científica ou jurídica e que começa a agir contra a ética médica ou a constituição (esta a medida da ética jurídica). Mas podemos falar também daquelas pessoas que amam a arte, o teatro, o cinema e que, de repente, perdem o senso de humanidade e começam a falar contra a dignidade humana. Parecem estar esquecendo alguma coisa que deveriam ter aprendido com os meios de produção da sensibilidade concernentes a tais atividades.

Estou mencionando as experiências políticas, religiosas, jurídicas, mas também científicas e artísticas porque elas definem o lugar das mais altas aspirações humanas. Sempre soa estranho que alguém bem formado, educado nas melhores instituições, com as mais dignas titulações, alguém que tenha viajado, que tenha aprendido outras línguas, que tenha entrado em contato com outras culturas e visões de mundo possa ser social e politicamente obtuso, o que se demonstra pela negação do princípio da dignidade humana que sempre deve ser confirmada na defesa de direitos humanos e fundamentais, da ética e da democracia.

Sob a consciência dissociada é como se a pessoa vivesse rachada ao meio, sendo duas ao mesmo tempo. A consciência dissociada é um problema social dos cidadãos, mas é também uma solução para quem quer manipular de algum modo a população. Para muitos a consciência dissociada serve como um discurso pronto. Há muitos líderes que pregam com base na dissociação da consciência.

Em geral, aquele que, partido em dois, sobrevive da consciência dissociada, ou ganha fama com ela, mostra apenas uma de suas faces, aquela que lhe rende mais. Isso não quer dizer que a pessoa saiba o que se passa, mas muitas vezes ela sabe e, mesmo assim, segue em seu papel. Isso explica a profusão de canalhas nas instituições, pois os canalhas vivem a dissociação em grau máximo. A dissociação da consciência é, aliás, o que permite usar a coisa pública para fins privados, o que permite enganar os outros sem culpa.

A consciência dissociada é a incapacidade de estabelecer nexos ou a falta de vontade para isso. Não é apenas a burrice – um termo usado em sentido vulgar, mas também de modo epistemológico e especializado – de quem não raciocina. Inteligência, contudo, não é uma categoria que possa ser deixada de lado hoje em dia, sobretudo em termos de ética e política. Inteligência é a capacidade de estabelecer nexos, tudo o que não é mais possível do ponto de vista da consciência dissociada. Vive no estado de consciência dissociada aquele que não junta, como se diz coloquialmente, o “lé com o cré”, aquele que não consegue perceber as contradições que tantas vezes comete a partir de seu lugar mais próprio (pensemos também nas pessoas marcadas por questões de classe, raciais, de gênero que aderem quase que espontaneamente à ideologia que as prejudica: o pobre capitalista, o negro racista, a mulher machista, o colonizado neoliberal, e muitos outros).

Enquanto muitas pessoas estão preocupadas com o retrocesso geral (promovido pelo governo desde o golpe de Estado), outros tantos simplesmente estão de bem com o que se mostra ao seu alcance já que se informam por meio dos noticiários da televisão, um veículo por demais comprometido com o status quo político e econômico nos dias de hoje e que em tudo contribui para a dissociação da consciência. Enquanto uns se desesperam e entram em depressão cívica, outros praticamente comemoram o cenário dos retrocessos. Quando se diz a alguém que a educação está sendo destruída em silêncio, uma educação que nunca foi grande coisa, há ainda quem seja capaz de responder que “brasileiros não precisam aprender a ler e escrever”. Confrontados com comentários tais como “o Brasil está sendo vendido de um modo barato”, há quem comente “O Brasil tem commodities que valem o mesmo aqui e na Zâmbia, não adianta chorar”.

Uns estão em completo desacordo com o estado injusto, outros totalmente de acordo. No meio disso tudo, há agentes da justiça que promovem injustiça com uma desfaçatez literalmente espetacular. Há também os que não entendem e preferem não opinar, pois passar despercebido em momentos de crise é o que há de mais garantido, há ainda os que preferem abandonar o barco de uma vez por receio de que venha a “sobrar” para eles, há os que não estão nem aí e vivem como se nada estivesse acontecendo.

Como julgar cada um?

Não devemos julgar. Julgar virou um método para o cidadão que imita o ato de julgar desde que juízes espetacularizaram vergonhosamente sua seríssima profissão.

No cenário da miséria espiritual, cultural, política e ética em que vivemos, o melhor é respeitar o lugar de cada um no processo histórico sem cair em julgamentos que, muitas vezes, escondem falta de autocrítica. Ao mesmo tempo, se quisermos revitalizar politicamente a esfera cotidiana, precisamos de diálogo. E diálogo implica perder o medo do outro, mas também implica um outro capaz de jogar um jogo limpo, atualmente em desuso. O jogo democrático é o que se perdeu, recriá-lo seria possível a partir do diálogo que desse base à uma democracia radical.

O diálogo não existe sem honestidade e sinceridade. Tudo o que os “duas caras”  da consciência dissociada não tem para colar a sua face rachada.

Só o diálogo é capaz de resgatar a face partida em duas no processo de dissociação da consciência.

Sabemos que é impossível, mas é a utopia que nos move e que pode mover cidadãos para além das rachaduras ideológicas que escondem o cadáver da democracia atual no Brasil.

Marcia TiburiMarcia Tiburi é filósofa

Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia. Publicou diversos livros de filosofia, entre eles “As Mulheres e a Filosofia” (Ed. Unisinos, 2002), Filosofia Cinza – a melancolia e o corpo nas dobras da escrita (Escritos, 2004); “Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero” (EDUNISC, 2008), “Filosofia em Comum” (Ed. Record, 2008), “Filosofia Brincante” (Record, 2010), “Olho de Vidro” (Record 2011), “Filosofia Pop” (Ed. Bregantini, 2011) e Sociedade Fissurada (Record, 2013). Publicou também romances: Magnólia (2005), A Mulher de Costas (2006) e O Manto (2009), Era meu esse Rosto (Record, 2012). É autora ainda dos livros Diálogo/desenho, Diálogo/dança, Diálogo/Fotografia e Diálogo/Cinema (ed. SENAC-SP).

É professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Mackenzie e colunista da revista Cult.

 

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