Será que a internet constitui, ela própria, uma nova forma cultural?

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Será que a Internet constitui, ela própria, uma nova forma cultural?

Data: Feb 11 2006 6:07:PM
Assunto: Re:Fórum Assíncrono II – Conclusões

Um pouco no sentido do que já disse, parece-me que ela é, neste momento, mais um território onde se exprimem formas culturais do que uma forma de expressão cultural ela própria. Não quer isto dizer que não haja uma interacção intensa entre essas formas culturais e o território onde se desenvolvem, que leva a transformações em ambos, e que pode originar formas culturais novas, impossíveis anteriormente por não haver os meios que as permitissem.

Numa analogia simplista, lembraria apenas como as condições geográficas e climáticas influenciaram as culturas humanas que se desenvolveram, ou o facto de uma comunidade deslocada do seu habitat para um habitat em que essas circunstâncias sejam muito diferentes acaba por revelar mudanças significativas também nas suas formas culturais. A adaptação ao meio não é apenas física, é também psicológica e condiciona a visão do mundo e a forma de expressão da inteligência e da actividade humanas.

Acho que existe algo em construção,  muito heterogéneo e ainda um pouco caótico que se pode designar como cultura digital, mas a nossa consciência da Internet enquanto tecnologia  (hardware e software que temos que comprar, com que temos que aprender a trabalhar, etc.) ainda obriga à distinção entre o meio e o que nele se desenvolve.

Penso, e aqui entro em terreno muito exploratório em que tenho dificuldade em exprimir com muita clareza o que quero dizer – porque o pensamento e a linguagem não são equivalentes exactos e porque não pensamos só com a lógica e o raciocínio – que a Internet tenderá a tornar-se transparente à medida que se torne mais omnipresente. Quero com isto dizer que talvez se venha a verificar com ela o que se verifica normalmente com as tecnologias após serem totalmente assimiladas – nem damos por elas ou nem pensamos nelas como tecnologia (veja-se, visto que estamos a falar disso noutros contextos, o caso da escrita).

Para que isso aconteça é naturalmente necessário que a rede se dissemine à nossa volta e apareça embebida na maior parte dos espaços que habitamos e dos objectos que usamos. Isso envolverá, também, o desenvolvimento profundo das interfaces de comunicação e processamento da informação (pesquisa, recolha, utilização, manipulação, redistribuição, etc.), que acabarão por tornar a tecnologia “invisível” e transformar a nossa percepção relativamente à rede, que deixará de ser um exterior para passar a ser um espaço que habitamos e no qual interagimos (com pessoas, com objectos e com informação). É até possível que a distinção entre real e virtual se venha a esbater, deixando de ser ontológica para passar a ser de grau ou de qualidade.

Nessas circunstâncias, talvez seja difícil destrinçar entre a cultura digital e o seu suporte tecnológico, tal como hoje pensamos em literatura ou cinema como formas culturais e não pensamos nas tecnologias que as permitem, fundidas que estão na nossa percepção e experiência.

Como digo noutra mensagem, bom seria que a dinâmica cultural e social que esteve na origem da Internet e que a moldou nas características que temos debatido – liberdade, inovação, horizontalidade, partilha e cooperação, etc. – continuasse a ser a geografia deste território, porque estar NA rede pode ser uma experiência muito concentracionária ou alienante caso assim não seja.

[] José Mota

 

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