Perguntas e tolices

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.... Frase de Bertolt Brecht.

Fotografia, filme, palavra escrita e falada,  são algumas das maneiras de conduzirmos nossos sentidos em relação à realidade. Orientados ainda por princípios cartesianos, discutimos de forma excludente. Uma imagem vale mil palavras? O romance acabou? Deus existe? Anjo tem sexo? e assim por diante, as dúvidas tolas vão se acumulando como um eterno bestiário. Nada disso importa, pelo menos não dentro de um caráter de inclusão.

O que é melhor, uma foto ou uma escrita? Depende da situação, do contexto. Não estamos habituados a pensar assim, mas de cenários que sempre levam às disjunções. O melhor, o pior, o dia, a noite, o material e o espiritual. Acostumamos nossa mente a trabalhar com antônimos mutuamente excludentes. Não se trata disso, mas de pensarmos que os cenários variam e que perguntas tolas merecem respostas tolas ou simplesmente não merecem respostas.

Vamos tentar refletir de modo mais flexível. Qual a relevância de respondermos determinadas perguntas e, pior, nos ofendermos em busca de uma resposta que não leva a absolutamente nada? Apenas a nossa sede de poder, de provarmos, seja com uma ironia, seja com um cassetete, que nosso ponto de vista é o mais forte, o mais poderoso, o mais qualquer coisa.

Quem é melhor? Judeus, muçulmanos, católicos, espíritas, protestantes, budistas? Melhor seria se deixássemos que cada um seguisse a sua história, as suas crenças, desde que não procurasse impor aos demais a sua ideologia a ferro e fogo. Essas escolhas muitas vezes são motivo de fenômenos como o bullying, que já começam a infernizar a vida dos outros desde a escola. De todo modo, no extremo, toda violência simbólica pode descambar para a física.

O que importa não é a certeza fechada nem a convicção estéril e cristalizada, mas a possibilidade real de convivência com os outros. O que o mundo ganha se continuarmos a cultivar perguntas que levam a uma asnice total?  A reprodução da miséria intelectiva e a diminuição das possibilidades de convivência.

Me lembro de uma reunião, entre várias, na qual ficamos muito tempo discutindo tolices, enquanto o que deveria ser discutido não o foi. Acho, no fundo, que é uma estratégia. Você não discute o que interessa e fica perpassando ad infinitum o que não tem a menor importância. Colocamos muito tempo e energia discutindo apaixonadamente bobagens.

Ponha, por exemplo, uma foto de Sebastião Salgado e um texto de Brecht, sob o mesmo tema. Importa saber qual dos dois é melhor? Nada, o melhor é aquele que mais diz a quem lê a mensagem!

Lembro Einstein, que disse que a inteligência era muito menos interessante que a ignorância pois, enquanto a primeira tinha limites, a segunda era absolutamente sem qualquer tipo de limitação. A bizarrice acompanha todos nós, e isso é certo: o pior é quando acreditamos nela e a elegemos como um parâmetro a ser seguido.

No entanto, conseguimos aperfeiçoar as bobagens.

Normalmente o fazemos quando há pontos sensíveis envolvidos. Fulano fez errado, eu faria diferente, eu faria melhor, eu não faria nada, mas ele fez e eu discordo, eu julgo, eu levo para grupos maiores, eu ridicularizo, enfim, eu, eu, eu, eu faço tudo, menos desenvolver empatia, capacidade de nos colocarmos no lugar do outro.

Nunca sabemos de tudo, e mesmo o tudo é fugidio. No entanto, nos abrigamos sob nossas experiências que não são exatamente iguais para todos, e nem poderiam ser. A maioria quer ser a rede, mas não a borboleta aprisionada.

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