Desterros comuns

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O desterrado, em princípio, é alguém que foi expulso da sua terra, de sua comunidade, de sua gente. Alguém destinado a viver só, a ser um constante estrangeiro, perdendo suas referências, a ser um exilado. Contudo, nem sempre o desterro implica numa vendeta, numa violência simbólica ou pessoal, e menos ainda resulta de alguma implicação política. O desterrado é um apartado, um esquecido, um transferir-se continuamente.

Há desterros, contudo, que não implicam em exílio, mas, não raro, residem na indiferença, na invisibilidade social, no não-reconhecimento econômico, na degola financeira, na não-participação da cidadania plena, crítica e consciente. São os desterrados, assim, considerados um fardo social, cuja carga indesejada deve ser suportada comunitariamente. Párias em sua própria pátria, são produtos vistos como membros paralisados, na pior das hipóteses, embora sejam, eles mesmos, mais conseqüências do que causas às quais não deram, muitas vezes, nascedouro.

No mais das vezes, são os mesmos membros muitas vezes involuntários de sociedades patológicas, excludentes, que não lhes possibilitam, no plano real, acessos à educação, à saúde, à moradia, ao lazer, ao emprego por não terem qualificações exigidas para tanto e aguilhoados por discursos hipócritas que mais não fazem do que retoricamente entoar o canto açucarado da história dos vencedores que mais reforçam os meios de segregação social. O que mais acode ao não-cidadão é a indiferença, a ignorância política e a necessidade financeira.

Há, contudo, muitos modos de se perpetuarem modelos excludentes, que nos vão envolvendo a partir de ideias mal recebidas, sem crítica e que compõem uma massa de conceitos que contrariam valores como solidariedade e educação. A partir daí se disseminam os mais diversos modos de violência, sejam simbólicas, sejam físicas. O acreditar-se pessoalmente será o primeiro castelo que ruirá ante os olhos dos demais. Os processos de falência nada mais fazem do que concentrar doses cada vez mais maciças de ignorância, violência, necessidade e diversas patogenias sociais.

Se até o advento do pós-moderno éramos cativos da repetição constante de dogmas psicológicos como a repetição nauseante dos padrões de culpa e de neurose coletivas, o que se observa hoje em dia é que estamos abandonando um sujeito histórico, no qual nos incluíamos mas que hoje apartamos, para nos centrarmos em um sujeito psicótico, vagamente depressivo e com uma tendência cada vez maior ao fetichismo social e ao sadismo compulsivo, representado, o primeiro, pela tendência ao consumismo ególatra e o segundo à repulsa ao outro, confirmando a exacerbação do individualismo e dos objetivos que repousam no egoísmo e na insatisfação que nos alcança a todos e nos deixa com um travo de solidão.

Contudo, há aqueles que se refugiam no fetichismo desenfreado e para esses, por uma questão de lógica ainda menos lugar cabe ao sujeito looser, aos habitantes violentos das piores regiões da cidade e dos quais ele deve manter ao máximo o não-envolvimento de qualquer espécie, seja para sua própria proteção pessoal, seja para manter-se onde está. Nesses casos fica muito claro que o desenvolvimento ou não de tais desterrados não lhe interessa, porque os mesmos são transparentes àquele que desenvolveu uma repulsa compulsiva ao outro, a não ser que o mesmo possa lhe servir como um sádico instrumento de prazer.

Nossas patologias são várias, mas na sua essência sempre estará o compulsivo princípio egoico e uma tendência a tornar social e econômico os efeitos de tais situações desesperançosas.

Uma piada nos dá claramente essa dimensão do homem produtivo. Alguém reclama a um amigo que ninguém mais o nota, ao primeiro, que ninguém mais lhe dá atenção, que nada faz com que ele seja reconhecido ou procurado por quem quer que seja, o que lhe deixa extremamente infeliz. O amigo, então, diz: “Pois então deixe de pagar suas contas e você vai ver como vão se interessar por você”.

A acidez e a ironia latente no que deveria ser uma piada mais nos traz inquietações do que humor, sendo a mesma tão-só um retrato acabado do que pretendem que sejamos hoje em dia. Um credor ou um devedor. Um sujeito não-histórico que se prende ao materialismo e às necessidades prementes de fazermos ou não parte de um determinado grupo que supomos nos aceite. Ao mesmo tempo não aceitamos esse outro, senão enquanto nos for útil, prático ou prazeroso. Caminhamos assim entre paradoxos e não conseguimos confrontar a síntese que realizaria uma situação dialógica que não mais existe.

Nosso medo maior é perder qualquer coisa que seja. Se antes tínhamos, como bons neuróticos, a sensação de que há valores imateriais e bens afetivos que não iríamos colocar em risco, graças a uma história construída na qual os mesmos eram permanentes, hoje não temos mais essa segurança. No entanto não somos ainda desterrados, não somos párias e participamos com grande apetite do banquete dos bens da mercancia. Como disse um sábio, a obra mais bem acabada do capitalismo é fazer com que os pobres da terra se creiam e se posicionem na defesa do opressor. HILTON BESNOS

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