O significado do que se aprende e o vazio curricular

Embora o discurso de muitas escolas particulares de ponta seja o de que buscam que seus alunos desenvolvam valores, aqui entendidos como parâmetros universais de convivência e desenvolvimento de critérios humanos fundamentais, o que se observa, na realidade é que, fora alguma campanha ou visita pontuais a algum centro que necessite de atenção constante, o que se vê é uma prática que mais tende a aliviar consciências do que a implementar práticas consistentes que visem tais valores.

Não sejamos cínicos: nessas jornadas o que se vê é o não engajamento ao que realmente posa mudar essas situações de risco. Afinal, o que procuram, para sermos claros, é que seus filhos ascendam no mercado de trabalho, ou melhorem tal status em relação aos pais. Portanto, há uma escala de hierarquia produtiva que os pais cultivam, incentivando a noção de que dinheiro é o valor que deve ser cultivado dentro de uma sociedade voltada para o consumo alienante e alienado, de tendência totalmente imagética e na qual segue-se a regra 80-20 (80 por cento de entretenimento e 20 por cento de qualquer outra coisa relativamente séria) e, no caso brasileiro, conservadora até a raiz da alma.

A questão maior é que o currículo escolar tão-só informa, e o faz em uma sequencia  que o aluno muitas vezes não entende.

A questão não é só essa, mas o próprio modo pelo qual o currículo é dado, que não permite interações e menos ainda que se desperte um interesse legítimo pelo mesmo. De antemão o aluno já sabe o que terá de aprender, ou decorar, ou qualquer outra coisa, em um determinado espaço de tempo, para prestar contas do que aprendeu para um terceiro, que o ensinou. Esse aprendeu e esse ensinou muitas vezes vem sob aspas.

Trata-se pois de uma escala massiva de ensino, ao qual desimporta se o aluno realmente aprendeu, desde que ele demonstre que aprendeu, pelos meios viáveis. Tanto isso é verdade que o sintoma mais claro é quando ele, o aluno, necessita buscar algum conhecimento anterior e simplesmente diz que não se lembra. Não se lembra por que o que lhe foi transmitido não teve significado maior. Era só o que ele tinha de aprender para conseguir uma nota melhor ou algo nesse sentido.

Quando não aprendemos algo essencialmente, somente um fator pode nos acudir: a memória. Quando somos enganados pela mesma, o desempenho escolar cai, e isso tem uma razão específica. Aprender, no sentido escolar, não é  empoderar-se do conhecimento, portanto não é apreendê-lo. Aprender, no sentido escolar é, dentro de um determinado limite de tempo, demonstrar, através de testes, que entendemos o que nos foi repassado por via da informação. E informação não é formação. A última começa a acontecer quando (a) valoramos o que apreendemos, nos dando uma sensação correta de empoderamento e (b) quando temos uma necessidade real de apreendermos o que nos foi comunicado. O fato de alguém falar sobre política não significa que entenda ou que conheça política.

O vazio curricular se dá quando o que nos é informado não é valorizado do nosso ponto de vista cognitivo. No entanto, teremos de passar por isso, porque a escola massiva não estimula ao pensamento crítico ou criativo, menos ainda ao aprofundamento do que estamos aprendendo. A prova disso é que mais tem tais aprendizados a ver com memória do que com a construção de um sistema aberto de conhecimento. As matérias, para usar a linguagem do dia-a-dia, são ilhas que integram a si mesmas, mas que não discutem entre si. Elas não são continentes, não tem estradas, não tem um território específico, são apenas pontuais. Ao invés de encontrarmos vida, encontramos apatia e comiseração. São gavetas à la Paulo Freire.

Incentiva ainda o vazio curricular a questão do tempo, do rápido, do furtivo, da desorganização e da distração. Um jovem de 14 anos tem mais informações hoje do que eu mesmo tive durante décadas. Mas igualmente tem um fog informativo e uma miríade de motivos de distração. Ou seja, eu tinha menos informação, mas tinha mais foco, que é o que permite que você destaque, do todo, o que importa em uma determinada circunstância, justo porque não tinha tantos fatores de distração e de deslocamento de interesses.

Se eu quisesse ler, ou fosse compelido a ler um determinado livro, tinha de comprá-lo ou ir para uma biblioteca e aproveitar o tempo lendo. Como tinha um objetivo específico, o cumpria. Hoje fazemos downloads, lemos e-books em algum instrumento eletrônico, mas nossas fontes de distração são infinitamente maiores.

Em suma, o currículo vazio o levará, talvez, ao curso superior de sua escolha, mas não o levará a valorar as especificidades e as derivadas da profissão escolhida. Não passamos, aqui de sermos alunos (a-lumni), mas o caminho para chegar a ser estudante é longo. HILTON BESNOS

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