Eu e o enxame

Este é um post antigo, mas merece ser publicado.

Ocorreu em 2009, por aí. Hilton.

Falo com uma colega a respeito de irmos para um evento, as Conversações Internacionais sobre Educação promovidas pela Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre. Ela me pergunta que horas a escola liberaria os alunos para que os professores fossem assistir a inauguração do evento, no centro da cidade, hoje à noite.

“Às cinco da tarde, parece”, respondi.

Ela considerou que iria ao centro (onde ela mora) e teria tempo de “um lanche rápido” antes de estar lá no cais do porto (local do evento) as 19 horas. E eu, o que iria fazer? me perguntou.

“Vou pra casa, faço a barba, tomo um banho, faço um lanche, troco de roupa e vou”, foi o que disse.

Ela: “Mas aí você não vai estar lá às sete”, disse a controller.

Eu: “ A maioria dos colegas vai fazer isso; é muito ruim trabalhar a tarde inteira e ir para um evento sem tomar um banho, de barba por fazer e com fome. Além disso, há tempo suficiente”.

The controller: “Não, na EJA não, todos vão juntos”.

Esta última frase teve um objetivo sentencial.

De repente muita coisa ficou clara, o porquê de me sentir, muitas vezes, inadequado e desconfortável na escola. Nada como prestar atenção ao cotidiano. No livro “Vida para consumo”, S. Bauman, em sua habitual acuidade fala a respeito de um conceito que serve justo como uma luva na situação descrita: o conceito de enxame.

Para o autor, o enxame “…não são equipes, não conhecem a divisão de trabalho. São … agregados de unidades dotadas do autopropulsão unidas unicamente …. pela solidariedade mecânica”, manifestada na reprodução de padrões de comportamentos semelhantes e se movendo numa direção similar”. …  “Os enxames, de maneira distinta dos grupos, não conhecem dissidentes, nem rebeldes – apenas,  por assim dizer,  ‘desertores’, ‘incompetentes’ e ‘ovelhas desgarradas’. As unidades que se desviam do corpo principal durante o voo apenas ‘ficaram para trás’, ‘perderam-se’ ou ‘cairam pelo caminho’.” Em um enxame ” não há intercâmbio, ou cooperação ou complementaridade, apenas a proximidade física e a direção toscamente coordenada do movimento atual.”

Ora, se ao conceito de enxame acrescentarmos o de panóptico,  um centro de controle e de vigilancia full time, onde o observado tem suas ações e inações contabilizadas como em um banco 24 horas, que credita pontos positivos e debita desvios comportamentais, entenderemos um pouco do meu desconforto.

Em minhas vivências, embora muitas vezes – na maioria, presumo, não tenha conseguido alcançar meus objetivos, sempre busquei privilegiar a inteligência interpessoal, o que, entendo, é uma forma de arte. Divorciado do comportamento gestor busquei sempre alternativas humanas de me relacionar com terceiros, fossem pessoas de carne e osso, fossem instituições. Não me arrependo, nem creio que deva ser diferente. No entanto, o enxame me aborrece profundamente.

Eu não me adapto àquele, não sou autopropelido, abomino seguir ordens quando quem as dá não tem capacidade  para tanto. No caso, a minha colega se entende assim, o que me causa uma irritação maior.  Uma das características do imbecil é tentar impor sua vontade mas não ter experiência real suficiente para fazê-lo. A estupidez não respeita a inteligência alheia. Pelo contrário, quer produzir não grupos de trabalho, não equipes, mas simplesmente enxames.

O imbecil ou, no caso, a imbecil não se furta de dar palpites desastrosos e confundir conceitos. É-lhe necessário, a todo tempo e a toda hora, estabelecer ligações baseadas na fofoca, no desacato e nas pequenas e abundantes misérias humanas. O poder que possui é circunstancial, não respeitoso e absolutamente inócuo. Talvez por isso eu tenha tanta dificuldade para conviver com tais personalidades. Na verdade eu as incomodo, não de modo proposital, mas por minhas posturas. Nada pior para um rebanho do que uma ovelha desgarrada. No meu caso específico, propositadamente.

Ah, sim, é claro que fiz o que disse que iria fazer, e cheguei por volta de 19 horas e trinta no evento, sem qualquer prejuízo, nem para mim muito menos para o evento, que mostrava painéis sobre educação. No entanto, a carcereira do panóptico deve ter anotado em seus escaninhos o meu débito, para cobrar a qualquer hora e em qualquer circunstãncia, de preferência a menos apropriada para tanto.

Não importa, não reconheço a minha dívida.

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