O tempo flui

Como escrever sobre nossas recordações, nossas passagens de vida? Devemos escrever sobre nossas vilanias ou apagá-las como irrelevantes? Pessoas que não são famosas (por qualquer motivo) ou que não foram tocadas pelo rei Midas trariam algum interesse em termos de leitura? Sem dúvidas, biógrafos e historiadores não haverá. Mário Quintana, grande pessoa e poeta, quando perguntado a respeito da possibilidade de ver sua vida posta em biografia, respondeu com o conhecido humor e sagacidade: “- Perdi o interesse pelo protagonista”.

É inegável, contudo, que há uma tendência genérica em contar e recontar histórias (muitas vezes na versão dos vencedores) e criar estórias  (nem sempre a ficção imita a vida), construindo pontes de humanidade e de comunicação. Somos todos, com ou sem talento, oradores, praticantes naturais da interlocução.

Adoramos comentar, ouvir, falar, interpretar, e essa condição bio-psico-social nos põe como tecelões de escritas, escribas muitas vezes sem roteiro e sem sequer objetivos. No entanto, é na interação com o outro que aprendemos a ser o que somos, que passamos a nos reconhecer, que fazemos nossas intervenções no mundo. A tecnologia nos segue, tratando de estender nossas capacidades naturais.

“Se queres ser universal começa por pintar a tua aldeia”, é o que diz Lev Tolstoi, em Guerra e Paz.

Talvez por aí faça sentido não uma biografia rançosa, um serviço de autos de cartório, uma fria linguagem burocrática, mas o compartilhamento de emoções, de sentidos, de signos e de significados. Embora cada um de nós tenha sua própria história, fruto de uma personalidade singular, os pontos de contato com o Outro são bastante fortes. Escrevo porque o Outro me pergunta e, em respondendo, encontro sentido na minha fala. Sou o Outro construído sobre minha identidade, e só a possuo porque, nesse Outro me reconheço, independentemente do que me motive em um dado momento da vida.

El tiempo passa nos vamos poniendo viejos, é o que canta La Negra. O tempo não admite senão a sua passagem, a sua pretensa onipotência,  e é ali que incrustamos nossas sombras, luzes, decisões, invejas, perfídias, tristezas, alegrias e frustrações. A história e o tempo nos vão dando as multifaces que temos como sendo nós próprios.

Imagino que, de aldeia e de global, flutuamos criando nossas existências. Conhecer tais pontos de flutuação ensinam uma história, um background que nos é imensamente caro e importante. Memória, representação, algo a dizer do que possamos imprimir como nosso. Biógrafos e historiadores não há, mas sim histórias que não foram escritas, poemas que ficaram ali, travados ou perdidos no meio das nossas vidas, controles que pensávamos eficientes mas que de há muito nós mesmos ajudamos a desativar.

Tolstoi está correto.

Elucida Fernando Pessoa: “As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido”. Somos do Outro o que o Outro é de nós, e não podemos escrever senão para que construamos interstícios, espaços de argumentos que acessem duplamente o que sou e o que o Outro é. Personagens por vezes etéreos, vagamos na condução de nossa existência, plena de consciência mas fortemente irrigada pelo inconsciente. Talvez por isso entendamos de modo tão íntimo o que nos toca em tal flutuação.

Não a escrita mas o caráter humano da biografia é deveras interessante. Afinal, cada vez que o personagem principal se desloca, flutuações acontecem. Miríades delas se tornam um quadro tão caótico que o afogamento é o previsto. Arriscar-se, o meio de toda educação. HILTON BESNOS

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