Entre o shtetl e o gulag: vozes do judaísmo russo

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Texto: Moacyr Scliar / Desenhos: Ester Gurevich

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Ai, Rússia, Rússia. Ai, Rússia.

Quem te fala, não e ninguém. Nem um presidente, nem um general; nenhuma dessas pessoas que costumam dirigir-se a países com a autoridade que lhes dá o poder e/ou as armas. Quem te fala é alguém que ousaria designar-se por “Um do povo” -Ahad Haam- não tivesse este pseudônimo sido usado antes por um sionista ilustre, Asher Guinzberg, que tuas terras aliás viram nascer. E, se o faz, e por razões que nada têm a ver com a política. E por causa de faces, Rússia, de faces que me são familiares, que despertam em mim emoções: as faces de minha avó, de minha mãe, de meus tios. Faces de malares salientes, de olhos oblíquos, com aquele pálido sorriso característico dos povos que sofrem. Por estas faces te falo, Rússia, e também por lembranças da infância: o samovar de cobre de minha avó, de onde saía o chá que nos aquecia a alma nas longas noites do inverno gaúcho. E te falo por causa das histórias que ouvi. E por causa de Trotski, de I. Babel, de ChagalI, de Sholem Aleichem. Por causa dos filmes e das canções que faziam bater mais forte o meu coração de jovem. E por amor que te falo, Rússia. Por um amor ao qual se misturam a decepção, quando não a raiva. Mas amor, sim. O amor que se sente por uma pátria distante. E que nos, judeus, temos muitas pátrias distantes.

Olho o rosto de minha mãe, já falecida, numa velha foto. É o rosto de uma camponesa russa. Por que terá essas feições? Será, como dizem, descendente dos khazares, aquele povo que, no século VIII, se converteu ao judaísmo? É uma história estranha, essa, como estranhas são muitas das histórias que se contam sobre ti, Rússia. Estranha, mas não desprovida de lógica: comprimidos entre os cristãos, ao norte, e o Islã, força crescente, ao suI, não e de surpreender que os khazares tenham visto no judaísmo uma forma de manter a independência e a neutralidade. O que funcionou por dois séculos; em 970 DC um exército russo destruiu o reino da Khazaria. Já então se manifestava em tuas terras, Rússia, aquele irresistível, e imperial, poder de expansão. Poder que o mundo aprenderia a conhecer e a respeitar.

Somos, então descendentes dos teus khazares, Rússia. Não sei. Nós, judeus, não somos muito bons nesta aristocrática ocupação que é buscar ascendentes nas brumas do passado. Nossa árvore genealógica é sempre mirrada; um arbusto, como aquela sarça – verdade que ardente – da qual Deus falou a Moisés. De modo que, se quiséssemos, poderíamos recuar ainda mais no tempo e encontrar, antes mesmo dos khazares, notícias de judeus vivendo no território do que depois seria a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Em sua atormentada dispersão pelo mundo-que teve início ao tempo de conquista assíria em 722 AC, prosseguiu sob o domínio grego e romano e tornou-se regra na Europa Medieval – os judeus vagaram de região em região, de aldeia em aldeia. Um movimento aparentemente errático, mas na realidade condicionado pelas forças que orientam os fluxos migratórios: a busca de melhores condições de vida. De riqueza, se possível. A isto, se acrescentava, no caso judaico, a necessidade de manter uma identidade de grupo.

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Impulsos que a História foi tornando contraditórios. No Ocidente medieval europeu os judeus mantinham, e eram mantidos, como grupo autônomo. Mas a ascensão de uma nova classe, a burguesia, colocou-Ihes um dilema: direitos humanos, sim, e ascensão social provavelmente -mas identidade grupal, não (Clermont-Tonerre, na Assembléia Nacional que estruturou o ideário da Revolução Francesa de 1789: “Aos judeus, como indivíduos, tudo; como nação, nada”).

E era isto que fazia os judeus voltarem os olhos para o Leste: pois, se a Oeste estavam o poder, a cultura e a riqueza, o Oriente representava o apelo do emocional, do espiritual. Poderoso tropismo, Rússia, como o sabe a tua mística gente. Tu eras, Rússia, o horizonte da esperança judaica. Em tuas vastas terras os judeus poderiam – O que? – desaparecer. Paradoxal propósito que o judeu Walter Benjamin – ainda que num outro contexto expressaria numa frase melancólica: achar-se num lugar e fácil, difícil e perder-se. E isto é o que os judeus queriam, perder-se, desaparecer da vista de seus inimigos. Mas, de novo, havia aí impulsos contraditórios; se, de um lado, a amarga experiência mostrava que para os judeus era melhor sumir na massa do povo, assimilar-se, de outro lado eram eles portadores de uma destinação histórica, resultante de um condicionamento que os obrigava, sempre e sempre, a se reunir, mesmo quando queriam se dispersar, a aparecer mesmo quando queriam sumir, a subir mesmo quando queriam descer, a falar mesmo quando queriam calar.

Durante toda a Idade Média os judeus viveram na Europa Ocidental. Médicos e artesãos, comerciantes e usurários, eles habitavam, na expressão de Marx – este judeu Marx, Rússia, que tanta influência teria em seu destino – os poros da sociedade, num equilíbrio instável que a todo instante podia ser rompido. Disto a usura era um exemplo típico. Proibida aos cristãos, era reservada aos judeus, que emprestavam dinheiro aos senhores feudais para financiar as expedições guerreiras, a compra de bens luxuosos. Devedores perigosos, aqueles, quando não queriam pagar, desencadeavam um massacre contra os credores. Que, por causa disto cobravam altos juros. Um caso de convivência, quando não de cumplicidade, entre criminoso e vítima. Um precário equilíbrio, rompido quando o capitalismo surgiu no cenário europeu, fazendo ruir uma anacrônica estrutura que dificultava a circulação de riquezas. Neste período de intensas transformações, os judeus foram os primeiros a ser executados de suas precárias posições. A partir do século XVI – o século dos descobrimentos, da imprensa, da pólvora, do surgimento das corporações mercantis e dos grandes bancos, tem início um duplo movimento: expulsos daPenfnsula Ibérica, da França, da Alemanha, os judeus dirigem se para Leste; vão ao encontro do Império Russo que se expande para Oeste. Junto a este poder em ascensão os judeus esperam encontrar seu lugar. Trazem consigo a experiência do comercio, o domínio de muitos idiomas e, sobretudo, o milenar aprendizado na arte de sobreviver. Que começa, ai, Rússia – sob o signo da ambivalência, desta ambivalência que resultaria depois numa riquíssima vida espiritual – e em espantosas perseguições. Ai, Rússia.

***

As primeiras reações são de repúdio, quando não de ira. Moscou, 1545: as mercadorias dos judeus são queimadas em público, e Ihes é proibido entrar na cidade. Polotsk, 1563: imediatamente depois que os russos conquistam esta cidade polonesa, o czar ordena que os judeus sejam batizados; aqueles que o recusarem serão afogados…As palavras do czar Ivan sintetizam a atitude predominante neste período e tern urn tom sombriamente profético.

“Não é conveniente deixar que os judeus entrem na Rússia, com suas mercadorias; muitas desgraças resultarão daí, porque eles sabem como envenenar as pessoas com suas ervas medicinais”. Mais tarde, tal libelo reverberaria na sentença dos médicos judeus acusados de tentar assassinar aquele que sempre sonhou ser o sucessor de Ivan, o Terrível: Joseph Dugashivili Stalin. Nem o terrível massacre perpetrado em 1642 pelos cossacos de Bogdam Chmielnitski – cem mil mortos – impediu que os judeus continuassem a chegar. Em 1708, 0 modernizador da Rússia, Pedro, o Grande, fez cessar os pogroms e permitiu que eles se estabelecessem em Petersburgo. Esta momentânea interrupção num processo quase contínuo de opressão deu alento a uma população que crescia cada vez mais: entre 1772 e 1815 mais de um milhão e duzentos mil judeus da Polônia e a Lituânia foram incorporados ao Império Russo. Incorporados mas não os acolhidos: as leis de 1795 e 1835 estabeleciam regiões onde os judeus tinham de ficar confinados; no final de século XIX, a população judaica ali chegava a cinco milhões de pessoas. E ai surgiria o núcleo da existência material e espiritual do povo: o shtetl.

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Ai, Rússia, Rússia. Ai, Rússia. Como explicar o que é o shtetl? A simples tradução não é o suficiente: cidadezinha, aldeia, estes nomes não chegam para traduzir aquela densa atmosfera espiritual que envolvia o shtetl. Mais que um lugar geognifico, o shtetl era a morada do coração, um reduto espiritual. Por isso se projetou no tempo, mais que no espaço: a Vitebsk de Marc Chagall, a Kasrilevke de Sholem Aleichem a Chelem do anedotário, cidadezinhas reais ou imaginarias, ficaram imortalizadas em quadros, em histórias. Em canções: “Belz, meine shtetele Belz…”

Do slztetl temos ainda muitas imagens. Imagens de amorosa ficção -nas histórias de Sholem Aleichem, de Peretz, de Mendele; imagens de lírico surrealismo nos quadros de Chagall; e as imagens reais de anônimos fotógrafos: a rua principal, enlameada, cheia de gente, de animais, de carroças, uma confusa babel. Confusa, sim, mas transbordando vida. Vivia-se, no shtetl, vivia-se intensamente, ainda que fossem penosas as condições nas acachapadas casinhas onde viviam as imensas famílias judaicas. Pobreza, sim; mas lírica pobreza. Porque, se faltava 0 conforto material, se o pão de cada dia era problemático, em compensação, eram fortes os laços de afeto a unir aqueles desamparados seres. No shtetl surgiu esta imensa figura que e a mãe judia. Centro de gravidade da família. A mãe cozinhava e lavava, a mãe varria e limpava, a mãe consolava o marido e atendia os filhos. Ao pai – pequeno comerciante ou artesão – cabia prover o sustento desta família. a que ele fazia com imensa dificuldade, e não menor estoicismo, guardando para si seu sofrimento, ou desabafando com o cavalo, como fazia Tevie, 0 leiteiro, de Sholem Aleichem:

“Anda, animal! Puxa esta carroça! Não és melhor que eu. Se é tua sina ser o cavalo de Tevie, tens de sofrer como Tevie. Aprende, com Tevie e sua família, a morrer de fome sete vezes por dia e a deitar sem jantar. Não está escrito no Livro Sagrado que homens e animais devem ter a mesma sorte? Ah, mas isto não é verdade. Porque eu posso falar, tu não: não podes exprimir tua dor com palavras. Eu, ser humano, judeu, sei o que tu não sabes. Sei que temos no céu um Deus grande e born que governa o mundo com sabedoria e misericórdia. Um Deus a quem posso abrir o meu coração e falar…Confesso-te, entretanto, que não há palavra capaz de substituir um bom pedaço de arenque. Ou um saco de cevada…”

Tudo isto dito naquele que é o mais pitoresco dos idiomas, o idish; a mame loschen, uma língua cujo vocabulário é uma colorida colcha de retalhos linguística: hebraico, alemão, russo, o idish dava testemunho da história de um povo errante. E o fazia com sentimento e com humor. Aquele humor – ai, Rússia, Rússia! – que permitia resistir aos tormentos, não poucos em tuas terras…Ai, Rússia. O humor povoou o folclore judaico de tipos inesquecíveis: o desastrado schlemiehl, o schnorrer – mendigo arrogante, os tolos de Chelem. O que podiam os judeus fazer, diante do sofrimento? Rezar, sorrir, sonhar. Como o melamed, o humilde professor de Kasrilevke, que, em seus devaneios, se via rico como Rotschild:

“Se eu fosse Rothschild! Adivinhem o que eu faria? Em primeiro lugar, acostumaria toda dona de casa a ter sempre consigo três rublos. Assim, ela não viria azucrinar a paciência da gente quando chega a bendita quinta-feira e a gente não tern um níquel para o sábado…Em segundo lugar, resgataria o meu gabardo de festa, ou antes, a pele de gato de minha mulher, para que ela deixasse de me apoquentar de que sente frio. Compraria uma casa, com três quartos, vestíbulo, despensa; assim ela pararia de reclamar que lhe falta espaço; toma dois quartos, cozinha, cose, lava, corta e me deixa tranquilo! Não preocupar-me com o sustento, não precisar pensar onde conseguir dinheiro para 0 sábado – que delícia! As filhas todas casadas, eu livre deste peso que me faltaria? Começaria a olhar um pouco para a cidade. Primeiro, doaria um novo telhado a velha sinagoga. Que pare de gotejar sobre as cabeças enquanto os judeus rezam; depois reconstruiria a casa de banhos, pois se não for hoje ou amanhã, um dia vai acontecer uma desgraça. Deus nos livre, pode ruir enquanto as mulheres tomam seu banho. E já que se cuida de banhos, e preciso sem dúvida derrubar a enfermaria e erigir um hospital, mas um hospital de verdade, com leitos, com um médico, com remédios, com sopinhas diárias para os doentes, como se faz nas cidades decentes. E construiria um asilo de velhos, e fundaria uma “Sociedade para Vestir os Esfarrapados”, a fim de que crianças pobres não andem, perdoem-me o termo, com o umbigo de fora; e uma “Sociedade de Empréstimo”, para que todo judeu, seja melamed, seja artesão e ate comerciante, deixe de pagar juros e não precise empenhar a camisa do corpo; e uma “Sociedade de Proteção as Noivas”, para que toda moça pobre, já de certa idade, coitada!, receba o seu enxoval, como deve ser, e se case; e outras sociedades congêneres eu fundaria em nossa Kasrilevke…Mas, na verdade, por que apenas em Kasrilevke? Em toda a parte onde se encontram nossos irmãos, filhos de Israel, eu instituiria estas sociedades, em toda a parte, no mundo inteiro!…E para que tudo corresse em ordem, adivinhem o que eu faria? Estabeleceria sobre todas essas sociedades urn órgão central de beneficência, que tomaria conta dos demais, de todos os judeus, isto é, de todo o povo de Israel, a fim de que todos eles, em toda a parte, obtivessem o seu sustento e vivessem unidos e se dedicassem aos estudos nos seminários talmúdicos. E acima de todas essas academias haveria uma grande academia, em Vilna, e claro, de onde sairiam os maiores eruditos e sábios do mundo. E tudo seria grátis, por conta de meu bolso, e tudo se desenvolveria em ordem, segundo um plano, sem o toma-aqui-pega-ali e todos pensariam apenas no bem-estar da comunidade!…”

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Solidariedade, Rússia. Este era o tema de sonho judaico. Mas não apenas a solidariedade com a gente de Israel, como suspeitam os anti-semitas; solidariedade com teus camponeses, Rússia, com os pobres em suas isbás, em suas choupanas. No conto de I. L. Peretz, o rabino de Nemirov não subia aos céus na época do Rosh Hashana, como dizia a- gente do shtetl; vestido como lenhador, ia ao mato cortar lenha. Para quê? Vale a pena transcrever a cena, tal como vista aos olhos do desconfiado litvak que seguia o rabino:

“O rabi dividiu a árvore em toros e os toros em achas. Juntou-as num feixe de lenha, amarrou-o com a corda que trazia no bolso, içou a carga às costas, meteu a machadinha no cinto e abandonou o bosque, dirigindo-se de volta à cidade. Numa das primeiras vielas deteve-se diante de um mísero casebre e bateu à janela.

– Quem é?- perguntou, do interior da casa, uma voz assustada. o litvak reconheceu a voz de uma gentia, de uma mulher doente. – la! – respondeu o rabi em sotaque campônio. Eu!

– Kto ia? – tomou a indagar a mesma voz – Eu, quem?

E o rabi respondeu mais uma vez em russo: – Vassíli!

– Que Vassíli? E o que queres, Vassíli?

– Trago lenha – disse o pretenso Vassíli – lenha para vender…Muito barata…

Quase de graça!

E sem esperar mais, entrou no casebre.

O litvak esgueirou-se atrás dele e, à luz cinzenta do amanhecer, divisou um pobre, soturno interior…Na cama jazia uma enferma enrolada em trapos, que disse com voz amarga:

– Comprar? Comprar com quê? Onde eu, pobre viúva, tenho dinheiro?

– Pagarás mais tarde – respondeu o suposto Vassíli; – são apenas seis vinténs!

– E como poderei pagar-te? – gemeu a pobre mulher.

– Tola! – censurou-a o rabi – Vê, és viúva e doente, e eu te fio esta lenha. Tenho fé que me pagaras; e tu, que tens um Deus tão grande e poderoso, não confias nele…nem por uns meros seis vinténs!

-E quem acenderá o fogo? – choramingou a viúva. – Não tenho força para me levantar. Meu filho esta fora, no trabalho.

– Eu – disse o rabi.

E, enquanto enfiava a lenha no forno, o rabi, gemendo, recitou a primeira das Preces da Penitência!…

E quando acendeu o fogo e as achas começaram a crepitar, o rabi pronunciou, já um pouco mais jubiloso, a segunda Prece…

Murmurou a terceira quando as chamas já esmoreciam e depois fechou o fomo. O litvak, que presenciou a tudo isso, converteu-se em adepto do rabi de Nemirov. E mais tarde, se um adepto do santo homem contava que o rabi de Nemirov, nos dias de contrição, se erguia todas as manhãs e voava para o céu, o litvak não ria mais; acrescentava suavemente:

-E talvez mais alto!”.

Muito alto, porém, teriam de subir os judeus para escapar do destino que Ihes estava reservado. Entre 1882 e 1891 um milhão e meio de judeus foram deslocados dos lugares em que viviam e forçados a viver numa região que, ampla embora, configurava-se como a versão czarista dos guetos medievais. E ai teve início urn novo capitulo da história judaica.

***

Para nós, ocidentais, o russo é um idioma difícil; poucas são as palavras que nesta língua conhecemos. Mas há um termo – ai, Rússia! – que foi incorporado ao vocabulário universal. Pogrom: a palavra evoca cossacos bêbados, enlouquecidos, invadindo aldeias, nos seus cavalos – e matando, violando, queimando, destruindo. Balta, 1882; Restov, 1883; Ekaterinoslav, 1883; Gomel, 1903…”As terríveis notícias que nos chegam da Rússia, a espada suspensa sobre a cabeça de nosso povo…” escreveu, em 1906, aquele que viria a ser o primeiro presidente de Israel, Chaim Weizmann. A espada suspensa sobre a cabeça do povo, que espada era essa? Não só a do bandido, era também a espada de czar: pois, para descarregar a crescente revolta popular, o governo não apenas tolerava os pogroms, como até os fomentava.

Starodub, 1891. Czestochowa, 1902. Kishinev, 1903. Para Kishinev foi enviado um escritor, Chaim Nachman Bialik, encarregado de fazer, aos líderes da comunidade, urn relatório do que ali havia acontecido. Em vez disto, escreveu urn poema. Um poema imortal pelas terríveis imagens. A Cidade da Matanfa:

…Vê: aqui, ali, entre as vigas,
Há olhos e olhos que te observam em silencio;
Os olhos das almas martirizadas
De almas acossadas, torturadas, perseguidas,
Que se amontoaram num esconso
Arrimando-se umas às outras e tremendo;
Foi aqui que as encontraram as achas afiadas.
E elas voltaram, para um derradeiro olhar,
Para fixar na pupila desses olhos dilatados
A cena do seu fim,
De todo o terror da sua morte bárbara,
De todo o sofrimento das suas lúgubres vidas.
Como pombas assustadas,
Adejam junto ao teto.
Dali te fitam, com olhos bafos, aterrados,
Que te seguem e fazem a antiquíssima pergunta,
A pergunta que ainda não chegou ao céu,
E nunca chegará:
“Por quê? Por quê? Mais uma vez por quê?”

Por quê? Uma pergunta que ficou sem resposta, a traduzir a angústia daqueles dias cruéis. Ai, Rússia, Rússia. Ai, Rússia. Que podiam fazer, os teus indefesos judeus? Fugir, mais uma vez. Emigrem, diziam-lhes, do Ocidente, aqueles que, como Weizmann, preocupavam-se com a sorte de seus irmãos. Filantropos judeus, compravam terras em regiões longínquas: a América, promessa de uma nova vida. Conta o escritor Marcos Iolovitch em Numa clara manhã de abril:

“Numa clara manhã de abril do ano de 19… quando a estepe começara a reverdecer a entrada alegre da primavera, apareceram espalhados em Zagradowka, pequena e risonha aldeia russa, da província de Kersan, lindíssimos prospectos, com ilustrações coloridas, descrevendo a excelência do clima, a fertilidade da terra, a riqueza e a variedade da fauna, a beleza e exuberância da flora, dum vasto e longínquo país da América, denominado Brasil, onde uma empresa colonizadora israelita, intitulada “Jewish Colonization Association”, mais conhecida por JCA, proprietária duma grande área de terras duma fazenda chamada “Quatro Irmãos”, situada no município de Boa Vista do Erechim, Estado do Rio Grande do SuI, oferecia colônias, mediante vantajosas propostas, a quem se quisesse tomar lavrador.

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Papai tinha pouca instrução; contudo, não duvidou do que diziam os anúncios.

Possuía uma crença ilimitada na boa fé dos homens. Daí porque leu e releu, com crescente interesse, os folhetos de propaganda. E acabou entusiasmando-se vivamente com a descrição da nova terra. Sobretudo, com a ilustração colorida da capa.

A capa dos prospectos ostentava uma singela paisagem da vida rural brasileira. Sob um céu límpido e distante, dum azul muito dace, urn lavrador, chapéu de abas 12 largas, camisa branca arremangada, empunhava, encurvado, as rabiças dum arado, puxado por uma junta de bois, revolvendo a terra virgem. Um pouco mais longe, no fundo, o ouro vegetal de extensos trigais maduros. Mais além, azulados pela distância, coqueiros, palmeiras e florestas misteriosas, E, no primeiro plano, destacando-se em cores vivas e fortes, um enorme pomar em que predominavam laranjeiras, a cuja sombra porcos comiam lindas laranjas caídas no chão.”

Para a América do SuI vieram muitos judeus. Mas eles foram, sobretudo, para a nova meca dos emigrantes, para Nova York. La, no pedestal da estatua da Liberdade, os versos da judia Emma Lazarus pediam ao Velho Mundo seus rejeitados. Que, em tuas terras, Rússia, não eram poucos.

E, foram finalmente, para a Palestina: entre 1880 e 1914 sessenta mil judeus fugiram dos pogroms para a então província do Império Otomano. A época, uma região de desertos, que os colonos irrigaram, e de pântanos, que sanearam. Era a odisseia sionista que começava, fortemente influenciada pelo ideal socialista.

***

O socialismo. O sonho que nasceu com os profetas bíblicos, passou pelos pregadores utópicos do século XIX e atingiu sua formulação lógica, poética, com Karl Marx. A revolução de 1917 fez de ti, Rússia, o repositório das esperanças dos famélicos da terra. Proletários de todo o mundo, uni-vos: a este brado, milhões se puseram de pé os judeus, entre eles. Os teus judeus, Rússia!

Os judeus que, desde os dias do Bund, o primeiro partido obreiro judaico, acreditavam que o futuro da humanidade pertencia à classe operária. Os judeus que lideraram a Revolução: Trotski, Zinoviev, Kamenev.

Talvez ninguém tenha vivido este sonho mais intensamente – e mais tragicamente é de que o escritor Isaac Babel, vítima, como o poeta Ossip Mandelstam, dos expurgos stalinistas. Natural de Odessa, era um rebelde nato, um admirador do lendário bandoleiro judeu Benya Krik que, das favelas de Moldavanka sairia para defender, com seus comandados, a nascente Revolução. Um exemplo que Babel seguiu, alistando-se na cavalaria vermelha – um judeu entre os cossacos, Rússia! No intervalo das batalhas, escrevia febrilmente os relatos que ate hoje nos comovem. Em O Filho do Rabino, ele fala-nos de um agonizante combatente:

“Reconheci-o: Elias Bratslavsky, 0 filho do rabino de Jitomir…Nós o deitamos a um canto… Comecei a arrumar os pertences dispersos do soldado Bratslavsky do Exército Vermelho: folhetos de propaganda, cadernos de anotações poéticas, retratos de Lenin e Maimônides.

Uma madeixa de cabelos de mulher, dentro de um livro. As Resoluções do Sexto Congresso do Partido e panfletos comunistas, cujas margens estavam cobertas de linhas tortuosas de antigos versos hebreus. Páginas do Cântico dos Cânticos, misturados com cartuchos de revolver. Eu disse ao agonizante:

– Numa sexta-feira, há quatro meses, Geddali, o velho negociante de roupas, levou-me a casa de seu pai, o rabino Motale. Mas você, naquela ocasião, não pertencia ao Partido, Bratslavsky…

-Sim, pertencia ao Partido – respondeu o rapaz, tremendo de febre. – Mas não podia deixar minha mãe.

– E agora, Elias?

– Quando há uma revolução, as mães são esquecidas, murmurou ele, com voz cada vez menos audível. – Chegou-se à letra B, a do meu nome, e a Organização me enviou ao front…

– Você chegou a Kovel, Elias?

– Sim, cheguei a Kovel. Os kulaks abriram o front ao inimigo. Tomei o comando de um grupo do regimento, mas era tarde demais…Não tinha artilharia suficiente…

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Morreu antes de chegarmos a Rovno. Ele, o último dos príncipes, morreu entre suas poesias, seus amuletos e botas ordinárias. Foi sepultado numa estarão qualquer, esquecida. E eu, que mal posso conter as tempestades de minha imaginação, neste corpo envelhecido, estava ao seu lado, quando ele exalou o último suspiro.”

Como todo grande escritor, Isaac Babel via além de sua época: a morte do soldado Bratslavsky antecipava o fim do sonho judaico. O que não ocorreu de imediato; ao contrário, as primeiras medidas do governo revolucionário foram positivas para os judeus. O confinamento territorial foi abolido, estimulou-se a publicação de livros e jornais em idish, e foi fundado o primeiro grande teatro hebreu, o Habima, hoje em Israel. O Poalei Zion, partido sionista de esquerda, funcionava legalmente; e uma região autônoma, Birobidjan, foi destinada especificamente aos judeus, para que ali se desenvolvessem como povo. No entanto, diz Isaac Deutscher, “quando a revolução chegou realmente, a violenta transformação da sociedade teve, também, doloroso e desintegrador impacto sobre considenlvel parte da população judaica. Uma vez que tantos judeus, na Rússia, eram humildes comerciantes, artesãos, especuladores, Luftmenschen, a revolução das necessidades procurou refazer a inteira estrutura de suas vidas. O que os socialistas queriam era conseguir a chamada produtividade dos judeus, sua conversão em operários de fábricas, em fazendeiros, em moderna força de trabalho. O pequeno comerciante se achava à beira do abismo: a nova estrutura não os favorecia. Isso os libertava, na verdade, do temor dos pogroms e das perseguições, mas ameaçava seu tradicional modo de vida. Na década de 1920, os bolcheviques começaram a encorajar os judeus a se dedicarem a terra, em colônias judaicas na Criméia, em Kherson e no Birobdjan. Visitei aquelas colônias na época e testemunhei o extraordinário esforço que alguns ‘goyim’ idealistas e alguns judeus entusiastas faziam para transformar, pelo menos parte da população, em bons fazendeiros. Fizeram-se consideráveis investimentos e tremendo empenho nessa tarefa de mudar a mentalidade dos Luftmenschen. Esperava-se que eles se libertassem dos truques do pequeno comércio e, vagarosamente, fossem aprendendo a arte de arar e lavrar o solo. Mas, todos esses esforços de transformar comerciantes em fazendeiros falharam. Os judeus simplesmente não estavam preparados para esta quebra de rotina, para tão radical e completa mudança no seu modo de vida. Durante séculos, os judeus foram habitantes de cidades e a tradição urbana tornou-se uma segunda natureza para eles. Apenas os sionistas mais idealistas, aqueles que desejavam estabelecer-se no solo sagrado de Sion, emigraram da Rússia e foram para o arado. Aqueles que ficaram na União Soviética não tinham vocação para fazendeiros. Tornaram-se operários da indústria moderna. Foi a solução. Muitos, muitos deles viraram operários de grandes fabricas, mas, mesmo assim, ainda eram minoria. A grande maioria, com sua tradição urbana e um nível geralmente mais alto de educação do que a população russa, passou a trabalhar como funcionários especializados e entrou em massa nas fileiras da burocracia pós- revolucionária, no partido, nas repartições públicas e nas instituições. Eles ainda representaram importante papel no mundo acadêmico”.

Como na Idade Média, os judeus ocupavam de novo posições que os tornavam visíveis, temidos e odiados, especial mente num país que tinha uma tradição histórica impregnada de anti-semitismo. A tragédia se aproximava, mas foi adiada por uma outra; o Holocausto. Em junho de 1941 as tropas nazistas invadiram a Rússia. Dos 15 dois milhões e setecentos mil judeus que viviam nas regiões ocupadas, apenas cem mil sobreviveram. Todos os outros foram assassinados, quer nas cidades e aldeias em que viviam, quer nos campos de concentração. Mas, diferente do que acontecera na Alemanha, os judeus não se deixaram conduzir passivamente ao extermínio. Entre 1941 e 1945 mais de 20.000 judeus, chefiados por figuras lendárias como as de Aba Kovner e Misha Gildenman, o “Tio Misha” ,juntaram-se aos guerrilheiros russos, ou formaram seus próprios grupos de partisans. Nos bosques, nas montanhas, ressoava o hino dos Partisans:

“Nunca digas: esta e minha derradeira jornada,
as nuvens esconderam para sempre a luz do sol.
Porque a hora tão esperada virá,
e nossas pisadas no solo dirão: estamos aqui!
Das planícies nevadas as terras das palmeiras:
nós estamos aqui! Com toda a tortura e dor…
Nós estamos aqui!”

Sim, eles estavam lá. Disparando suas metralhadoras, sabotando pontes e estradas, dinamitando depósitos de munições, lutando e morrendo. E para quê?

Ai, Rússia, Rússia. Ai, Rússia.

Tão logo terminou a guerra, Stalin voltou-se para os judeus. Não o fez imediatamente houve um breve, e importante interregno. Em 1947 a URSS apoiou, na GNU, a criação do Estado de Israel. Mais que isto, foi com armas tchecas, entre outras, que os judeus defenderam-se da agressão de seus inimigos. Foi uma breve, mas intensa lua-de mel; por um instante, os comunistas viram no jovem Estado um bastião da luta contra o colonialismo e contra o feudalismo árabe. Depois, já não havia colonialismo, e as monarquias árabes deram lugar a regimes nacionalistas, dos quais o de Nasser foi o primeiro. As simpatias mudaram. Com sombrios resultados: em 13 de janeiro de 1953, médicos, a maior parte dos quais judeus, foram presos, acusados de uma conspiração para matar Stalin e outros Iíderes soviéticos. Ressuscitava-se assim os velhos temores medievais, o que desencadeou uma onda de anti-semitismo em toda a União Soviética. Em 1956, centenas de judeus foram detidos por “especulação econômica” e condenados a longas penas em campos de trabalho forçado. Em 1958 a campanha mudou de tom: desta vez o alvo era o sionismo e a religião judaica: a tradicional prece de Pessach, “no ano que vem em Jerusalém passou a ser considerada subversiva. Entre 1968 e 1975 cerca de setenta judeus, que haviam solicitado visto para emigrar para Israel, foram aprisionados e submetidos a maus tratos; em junho de 1970 judeus de Leningrado foram detidos por protestar publicamente contra a negativa do governo em conceder-lhes vistos. Nascia uma nova categoria: os “prisioneiros de Sion”. Breve os nomes de Ida Nudel, Yossif Begun, de Anatoli Sharanski, de Joseph Brodski, e outros, se tornariam conhecidos em todo o mundo o símbolos de uma luta pela liberdade sob um regime que, teoricamente, se propunha a terminar com a opressão. Nem todos participavam nesta luta; mas, se Ilia Ehrenburg, escritor e mestre na arte de sobreviver governo após governo dizia, no seu septuagésimo aniversário: “Mesmo que meu passaporte me declare judeu, sou um escritor soviético” – outros não estavam dispostos a renunciar a seus valores espirituais. E ainda, que entre estes não faltassem os que desejavam ir para Ocidente simplesmente para enriquecer, sua luta e digna de admiração.

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Uma luta que, diga-se de passagem, não envolveu violência. Não por parte dos judeus. Protesto, sim; mas não violência. A nostalgia do shtetl pesa, não é mesmo? E o resultado é uma forma de resistência a qual não falta o sentimento, e até mesmo o humor. O humor que satiriza um governo que não resolveu os problemas de seu povo, mas dá-se ao luxo de ser anti-semita; como naquela história que conta da longa fila formada a porta de um supermercado, a espera da came. Aparece o gerente e diz: a carne vem vindo, mas não será suficiente para todos, de modo que os judeus podem ir embora. Os judeus vão-se. Meia hora depois, volta o gerente anunciando que a carne esta chegando, mas não haverá para todos, de modo que os que não são membros do Partido podem se retirar. Vai-se um grande grupo. Finalmente, depois de meia hora, o gerente aparece, confessa que não há carne alguma e que os camaradas também podem ir. Ao que diz um membro do Partido a outro: você viu? Viu como os judeus têm privilégios?

Este humor chegou a criar um personagem típico: Abram Rabinovich, sempre às voltas com o serviço secreto soviético. Que o encontra nos lugares mais imprevistos: por exemplo, no parque, onde ele esta estudando hebraico num manual de bolso. O agente lhe diz que tal e proibido, porque faz supor que a pessoa quer ir para Israel. Eu não quero ir para Israel, diz Rabinovich, estou me preparando para ir para o céu, onde, como e sabido, só se fala hebraico. E se você for para o inferno, pergunta o agente. Ai não tem problema, replica Rabinovich, porque russo eu já sei.

Ou então o agente bate-Ihe na casa as três da manhã. Quem é, pergunta Rabinovich.

O agente responde que é o carteiro – mas quando Abram abre a porta, identifica-se como membro de serviço secreto e faz seu interrogatório:

-Você pediu um visto para ir a Israel?

-Sim.

-Por quê? Você não tem o que comer?

-Tenho.

-Não tem o que vestir? Não tem onde morar? Não tem assistência médica?

-Tenho tudo isto.

-Então, por que quer ir embora?

-Porque – replica Rabinovich – não me agrada viver num país em que o carteiro entrega correspondência às três da manhã.

Finalmente, conta uma história, a mulher de Abram, Sara Rabinovich, consegue emigrar. Antes que ela vá, combinam um código para enganar o censor: tudo que eu escrever com caneta preta, diz Abram é verdade; tudo que eu escrever com caneta vermelha e mentira.

Meses depois, Sara recebe uma carta: “A vida aqui na Rússia melhora dia a dia.

Cada vez há mais comida, a liberdade e completa, todos estão felizes. Só tenho um problema: não consigo achar canetas vermelhas em parte alguma!”.

Ai, Rússia, Rússia. Ai, Rússia.

Um dia deixarás que Abram Rabinovich se vá, Rússia. E ele irá, Rússia, para Israel ou para algum lugar em que possa comprar canetas – pretas ou vermelhas. Irá alegre, por certo; mas será com aperto no coração que deixará a terra de Sholem Aleichem, de Chagall, de Isaac Babel, dos partisans judeus. E um dia, Rússia, tu te reencontrarás com o teu passado judaico e te reconhecerás nele. Um dia, Rússia, tomaremos chá juntos, e a nossa mesa estarão, redivivos, todos aqueles que mesmo odiando, te amaram. Este dia vira, Rússia. E então suspiraremos, como as velhas avós judias: Ai, Rússia, Rússia. Ai, Rússia.

– See more at: http://www.scliar.org/moacyr/textos/entre-o-shtetl-e-o-gulag-vozes-judaismo-russo/#sthash.GC1us7nK.dpuf

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