Ana Paula e Atget

Para Ana Paula Umeda

Eugene Atget. Quem de nós, simples mortais, já ouviu falar dele? Provavelmente vimos algumas das cerca de dez mil fotos com as quais nos brindou a arte deste francês nascido em Libourne, França, no ano de 1857 e falecido em 1927. Passou vinte e cinco anos fotografando a Paris do final do século, criando uma coleção sólida e coerente. Uma obra uirbana. Quando morreu, só e abandonado, apenas um ano antes seu talendo havia sido descoberto.

Quem vê as fotos de Atget vai às raias das reminiscências, é como se estivessemos vivendo a Belle Èpoque ou como se Edith Piaff ou Carlitos fossem aparecer em algum daqueles cenários, cheios de lirismo, poesia e dramaticidade. As cidades, como os homens, se modificam, e isso podemos perceber claramente vendo e especialmente refletindo sobre a obra de Atget.

A sensibilidade da câmara não acontece sozinha, e não sei exatamente porque Atget me lembra um pouco da dramaticidade cotidiana de Buenos Aires. Há muito de tango nas suas fotos, há toda uma extensa releitura que pode ser efetivada a partir das imagens captadas pelo artista. Há, ali, um pouco da alma francesa, das suas desilusões, das suas desventuras, do seu povo pobre mesclado em uma história de dor mas de intenso orgulho. Há muito de Piaff.

A arte de fotografar as cidades, de colher seus aspectos mais intrigantes diz respeito, em meu entender, com a possibilidade não apenas de captar um documentário, mas um cenário real onde as pessoas se encontram, se desencontram, cruzam entre si sem se olharem, com o fluir da massa, com a fixação de um conceito próprio que tem a ver com a cultura da cidade.  São Paulo, por exemplo, é uma cidade? Não, é muito mais do que isso, é uma concretude que envolve uma cultura moldada por cidadãos de todo o mundo, de gente que buscou aqui o que muitos buscaram em Nova York, em Paris, em Londres. São Paulo não é uma megalópole porque é uma cidade quase ilimitada, mas pelo acolhimento à multietnia, aos costumes, às ideologias que, entrecruzadas, foram dando um rosto, um cenário, uma vocação, nichos de cidadãos, onde se mistura o absurdamente rico e o miserável, famílias que migraram do Japão, da Europa, da América Latina e que foram construindo uma arquitetura social, econômica, financeira e humana.

Uma rede fantástica criada a partir da cotidianeidade, das dificuldades, das línguas tão distantes do nosso português. A história das cidades me fascina, mas não estritamente do ponto de vista histórico e documental, mas também do ponto de vista da ficção, das irrestritas possibilidades que temos de aprender sobre e com o outro. Aprender muito mais do que a escola ensina; aprender sobre a vida.

Há um tempo atrás, recebi um comentário de Ana Paula Umeda e a partir daí, fui conhecendo sua obra fotográfica. Então resolvi escrever aqui, porque a sua arte me levou a buscar saber quem era Eugene Atget e, de repente, meu inconsciente impulsionou-me para uma Paris que só conheço de filmes, todos eles antigos mas geniais. A arte de Ana Paula Umeda me mostrou uma São Paulo que eu amo e que já trilhei; sua sensibilidade homenageia Atget, e isso fica claro nas sua fotos.

Que bom que pude conhecer, através do BLOG DO BESNOS Ana Paula e Eugene Atget. Essa a arte da aprendizagem, que nos leva a sermos mais sensíveis, mais solidários e, especialmente, de podermos compartilhar o que, pelo talento, deve ser compartilhado. HILTON BESNOS

ps: O blog do Besnos está sendo desativado. Suas melhores postagens estão aqui.

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