Sunismo e xiismo, um cisma religioso com 14 séculos que se mantém

No mundo muçulmano, do norte de África à Indonésia, o sunismo e o xiismo, com derivações, constituem as duas grandes correntes do Islão, a primeira seguida por mais de 80% dos cerca de 1,5 mil milhões de crentes.

O cisma entre estas duas correntes religiosas tem origens remotas, na sequência da morte do profeta Maomé em 632 (século VII), na actual Arábia Saudita, um país que permanece a grande referência do sunismo na sua estrita variante wahabita.

A execução no sábado pelo regime da Arábia Saudita do líder religioso xiita saudita Nimr Baqer al-Nimr, que motivou um ataque à embaixada saudita na capital iraniana e o corte de relações diplomáticas entre Riade e Teerão, são as mais recentes erupções desse conflito histórico e um sinal que o confronto entre as duas grandes correntes do Islão está longe de terminar.

Os xiitas consideram Ali, marido de Fátima, genro e primo do profeta, como o sucessor legítimo de Maomé e definem como ilegítimos os três califas sunitas que lhe sucederam na liderança da “comunidade dos fiéis”.

A disputa pelo título de califa, literalmente o sucessor e representante do profeta Maomé, está assim na origem da fractura, que se prolonga há quase 14 séculos, para além de uma interpretação diversa dos textos do Alcorão, o Livro Sagrado.

O sunismo (de ‘sunna’, os preceitos baseados nos ensinamentos de Maomé), que prevaleceu maioritário nas suas diversas expressões, sugeria genericamente que qualquer fiel poderia ser o sucessor do profeta após o necessário consenso entre a comunidade islâmica.

O xiismo (o “partido de Ali”), defendia pelo contrário a sucessão “dinástica”, uma linha sucessória, apesar de no islamismo clássico não existir o conceito de hierarquia.

O período de expansão do islão, em particular em direcção a oriente, coincide com as lutas intestinas pelo poder político-religioso, que desembocam numa guerra civil quando o terceiro califa sunita (Otman Ibn Affan, do clã dos omíadas) é assassinado em 656 por um rival, também sunita.

A corrente xiita considerou este atentado como a oportunidade para impor Hussein, filho mais novo de Ali e Fátima e neto de Maomé, na liderança do califado.

Hussein dirigiu uma rebelião para impedir que o cafila sunita Yazid assumisse o trono. A rebelião foi destroçada na batalha de Kerbala (no atual Iraque) e o líder xiita degolado. Ainda hoje, a ‘Ashura’, que celebra o assassinato de Hussein, constitui uma das mais pujantes e penitentes manifestações religiosas do xiismo.

Actualmente existem apenas quatro países com maioria de população xiita: o Irão, principal referência sobretudo após a revolução islâmica de 1979 (93,6%), o Iraque (66,92%), o Bahrein (74,29%) e o Azerbaijão (85%).

O xiismo está ainda presente de forma significativa no Iémen (45%) — um país onde a Arábia Saudita se envolveu na guerra civil e tem combatido os ‘huthis’ xiitas –, no Líbano (43,59%), com destaque para o poderoso movimento radical Hezbollah, envolvido na guerra da Síria ao lado das forças do Presidente Bashar Al-Assad (da minoria alauita, uma derivação do xiismo), no Kuwait (30%), ou na Turquia (21%), através da minoria alevita, outro ramo desta corrente religiosa.

Nos turbulentos Afeganistão e Paquistão, o xiismo é seguido respectivamente por 19,3% e 24% dos crentes. Na Arábia Saudita, constituem cerca de 15% da população.

Os grupos ‘jihadistas’ mais radicais reivindicam-se do sunismo, incluindo a Al-Qaida e o grupo extremista Estado Islâmico (EI), para além do Hamas, a formação palestiniana fundamentalista que domina a Faixa de Gaza.

Muitas destas correntes têm merecido o apoio político e financeiro da Arábia Saudita, a grande referência do sunismo no mundo árabe.

Hoje, o grande confronto entre sunismo e xiismo decorre em três países: Iraque, Síria e Iémen, com o envolvimento das duas grandes potências regionais, Arábia Saudita e Irão, que apoiam os dois campos em confronto, e num contexto de intervenções militares externas.

No Iraque, a maioria xiita, no poder e com a complacência iraniana, tenta opor-se à rebelião dos sunitas, em particular aos avanços do Estado Islâmico (sunita), com registos de represálias e graves abusos dos direitos humanos sobre as populações civis cometidos de parte a parte.

E para além do Iémen, a Síria também se tornou palco de um confronto feroz entre o Governo de Damasco, dominado pela minoria alauita (proveniente do xiismo) e a miríade de grupos rebeldes sunitas, mais ou menos fundamentalistas, e que também coloca em campos opostos Riade e Teerão, num país com maioria de população sunita.

E à semelhança do Iraque, a repressão das rebeliões fomentadas pela maioria sunita síria, afastada do poder, também serviu de pretexto para o início da revolta de Março de 2011 e da guerra civil, que prevalece.

A crescente e determinante intervenção de diversas potências numa região que também sempre foi alvo da cobiça dos impérios europeus, que a retalharam entre si após a I Guerra Mundial, e ainda dos Estados Unidos é ainda outro factor determinante, em particular pelas divisões que continua a acentuar entre estas duas facções religiosas do Islão.

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