Agenda Setting: por que estamos falando do que estamos falando?

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O papo da mesa de bar pode ser menos espontâneo do que pensamos

João Vitor Fernz

Esses dias li que sopa detox é o novo alimento da moda. Na verdade, passamos os dias procurando o que é melhor para as nossas vidas. Mas o que poucos percebem é que o gatilho para a maioria de nossas tomadas de decisão são tendências ditadas pelo marketing, que nos formatam com o que as teorias de comunicação chamam de Agenda Setting.

Já ouviu falar nessa expressão?

Se não, já deve ter conversado a respeito de produtos orgânicos, zero lactose, kit gay, zumba, crossfit, moda vintage, legalização da maconha ou aborto. Já parou para pensar o motivo pelo qual parte desses tópicos fazem parte da lista de consumo ou de assuntos das rodas de conversa da atualidade?

Agenda Setting. Isso pode significar que alguém pensou esses assuntos por você e que somos influenciados por fontes de informação.

Zumba? Mas essa aula não era de ginástica localizada?

A teoria do Agenda Setting foi estabelecida pelos ingleses Maxwell McCombs e Donald Shaw e está mais presente em nossa história e no cotidiano do que pensamos.

Acho que nunca imaginamos que a conversa do happy hour de sexta, o bate-papo na manicure e outras conversas aleatórias fossem tão importantes e valiosas, a ponto de serem vendidas pra nós. Esses temas ganham tamanha visibilidade que são capazes de valorizar ações econômicas de marcas na bolsa de valores ou criar uma nova embalagem para quem está vivendo uma crise de imagem. Bem como eleger políticos ou mudar percurso de leis e tabus sociais, que sempre irão gerar lucros diretos/indiretos à alguém.

Nossas conversas têm dono

Os maiores utilizadores do Agenda Setting são os arquitetos das agendas mundiais, que costumam afetar o caminho de toda uma sociedade em favor de seus interesses. Essas pautas geralmente são políticas e quem as decidem e orquestram são grandes organizações mundiais, como o Foro de São Paulo, Clube de Paris, ONU, Clube de Bilderberg, Nova Ordem Mundial, governos de determinados países, instituições religiosas, ONGs e outros fortes grupos econômicos. Para quem nunca ouviu falar nesses nomes, vale uma breve leitura.

Há uma impressão habitual de que esses patrocínios só ocorrem de forma velada ou até ilegal, mas existem organizações formais que defendem seus interesses e divulgam seus investimentos de forma aberta.

É o caso da Open Society Foundations, que tem como fundador o filantropo ou megaespeculador George Soros, que investe abertamente na legalização da maconha pelo mundo, como em 2014, quando foram investido 500 mil dólares no Uruguai.

“Pra onde vai a grana dessa vez?”

Este ano, a instituição abriu escritório no Brasil e Soros concedeu uma entrevista no mínimo interessante à Folha de S.Paulo. Para muitos críticos e especialistas, uma das metas da sede brasileira também é a legalização da maconha em solos tupiniquins.

Presidido pelo ex-secretário nacional de Justiça (2011), Pedro Abramovay, o escritório poderá multiplicar a rede de amizades de George Soros no Brasil, que já é poderosa – afinal que político brasileiro não gostaria de ter como amigo um filantropo bilionário?

Entre os nomes temos Fernando Henrique Cardoso e o senador Cristovam Buarque(PDT-DF). Coincidência ou não, FHC é um dos principais nomes defensores da legalização no Brasil e Cristovam, em 2014, presidiu as audiências da SUG 8, que sugere a legalização no Senado Federal.

Agora uma pergunta pertinente: por que motivo um estrangeiro investiria tanto para mudar uma lei em outro país?

Filantropia não parece ser a resposta mais lógica. O fato é que conversas sobre temas como esse são pautadas em nosso meio social com alguma finalidade, aparentemente mais capitalista do que de caridade de bons velhinhos.

Eu não entendi o enredo deste samba, amor

Aqui vai um desfile de propósitos na avenida, já que quem sabe que é vitrine não perde tempo e vende com antecedência os espaços em sua prateleira.

Há quem diga que as escolas de samba definem o tema de seus enredos totalmente de forma comercial, a preço de ouro. Fazem isso por saberem, que durante aquele período são capazes de gerar Agenda Setting com toda a sua visibilidade.

Neste ano, um caso chamou a atenção inclusive do Ministério Público Federal (MPF):a campeã Beija-Flor teria recebido uma doação estimada em R$ 10 milhões do ditador da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, pelo samba enredo “Um griô conta a história: um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial”.

Isso custa caro, amor

O assunto repercutiu na grande mídia e a CartaCapital chegou a entrevistar um ativista político do país erradicado nos Estados Unidos. Uma série de especialistas em diplomacia destacaram a disparidade do valor da doação com a realidade do povo da Guiné Equatorial, onde a maioria do povo vive com menos de 1 dólar por dia.

O caso é rotineiro. Nossa paixão pelas escolas pode ser comercializada, afinal sabemos que durante o carnaval os assuntos levantados nos enredos se transformam facilmente em notícia e temas de conversas.

Velhas e novas mídias vestem suas celebridades

Se você tem muitos seguidores no Instagram e tem influência sobre seu público, certamente pode estar dando de graça sua credibilidade a produtos comerciais ao postar uma foto consumindo algo ou simplesmente marcando sua localização em um estabelecimento comercial.

Por isso, hoje é comum vermos bodybuilders usando suas redes sociais para divulgar suplementos ou belas mulheres divulgarem cosméticos, por meio de dicas de maquiagem no YouTube.

Já em 2009, Jason Zook, que é hoje escritor e referência sobre negócios criativos na web, fez de sua imagem um business rentável: ele passou a vestir a camisa de uma empresa por dia. Qualquer marca podia comprar o seu dia e ele tirava uma foto descolada vestindo a peça e postava em suas redes.

“Oi, tudo bem? Me paga pra eu vestir a tua roupa?”

O empresário talvez tenha sido o primeiro grande case nesse segmento, e o negóciolhe rendeu milhões de dólares. Em poucos meses, a agenda de camisetas que ele ia vestir – que ficava disponível no site oficial – já estava completa por um período de mais de um ano. Durante quatro anos com este trabalho, Zook pautou o nome de várias empresas e produtos nas rodas sociais norteamericanas.

Desta forma, os canais de vídeo se tornaram ferramentas poderosas para vários tipos de conteúdos. Roteiros de esquete de humor, webséries e outros conteúdos tornam-se atrativos para marcas investirem em publicidade e merchandising, com o fim de levantar algum assunto nas rodas que frequentamos. Isso já acontecia com as novelas, séries, programas de auditório e nas pautas dos jornais e revistas.

Nem tudo são espinhos: a arte e a democratização das vitrines

Isso nos deixa com uma sensação de que a arte e o jornalismo sempre serão maculados pelo comercial. Mas tirando de lado o romantismo da produção cultural, todo esse novo arranjo midiático democratizou a publicidade, que antes era dominado apenas por grandes conglomerados: as emissoras de TV, rádio, jornais e revistas.

“Parece você, mamãe!”

As mídias sociais harmonizaram esse poder e o nascimento de novos meios e personalidades, equilibrando a balança comercial da propaganda, em nível de recurso e influência social. E a gente não pode esquecer que a propaganda tem um papel fundamental na produção artística.

O efeito colateral da proibição de comerciais para crianças foi a redução drástica de programas infantis nacionais na TV aberta, o que fortaleceu o consumo de produtos internacionais. Isso pode gerar um lapso de identidade no futuro dessa geração. Diferente dos adultos de hoje, que podem citar como referência de sua infância programas como: Castelo Rá-tim-bum, Sítio do Pipcapau Amarelo, TV Colosso, entre outros.

Boas práticas em relação ao Agenda Setting

Sabedores da existência e operacionalidade dessa fórmula, podemos nos proteger e também utilizá-la de maneira positiva. Aqui vão três sugestões para otimizar o olhar sobre a informação que consumimos.

A primeira é o filtro da consciência crítica. Sempre que ler uma notícia ou história que envolva marcas ou ideais se encaixando de forma muito perfeita, acione o gatilho de que tudo na vida que aparece muito certo provavelmente foi orquestrado, pois mesmo aquilo que é muito bom não bebe de verdade absoluta.

Sempre questione:

  1. Quem têm interesse nesse assunto?
  2. Como alguém poderia se beneficiar com essa história?
  3. Quando e onde o assunto surgiu?

A segunda é extrair o néctar do marketing. Toda construção de Agenda Setting é elaborada com muita pesquisa e estudo para justificar sua importância. Depois de levantadas essas informações, a função do marqueteiro é anabolizar a relevância do tema.

Se retirarmos essa maquiagem e identificarmos o néctar daquela mensagem podemos identificar informações poderosas para as nossas vidas.

Outra premissa jornalística é fundamental: ouvir os dois lados. Toda história tem duas versões.

A terceira e mais importante: seres individuais tem hábitos e pensamentos únicos. Após os dois exercícios anteriores, você já sabe onde se encaixa a sua presença naquele tema e consegue identificar se aquela pauta te traz reais benefícios.

Afinal, construir pontes de comunicação efetivas no mercado de trabalho, em seu ciclo familiar e na roda de amigos pode ser um dom ou um caminho trilhado por boas estratégias.

publicado em 04 de Outubro de 2015, 00:00

João Vitor Fernz

João Vitor Fernz é coach especialista em comunicação, jornalista, escritor e roteirista.

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